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História Oral: em Busca de uma Ferramenta para a Investigação em Enfermagem
França, Ana Paula, *, Escola Superior de Enfermagem do Porto
Mendonça, Maria Emília, *, Escola Superior de Enfermagem do Porto
Resumo
A História Oral tem a sua origem no movimento da História Nova em meados do século XX. Desde o seu aparecimento tem gerado discussão entre os investigadores que questionam se esta pode ser considerada metodologia, técnica, fonte de saber ou disciplina. No entanto, como método de investigação tem vindo a ganhar importância, vencendo as resistências da historiografia tradicional.

Segundo Thompson a História Oral é uma história construída acerca das pessoas, em que através da oralidade é possível a transmissão de conhecimentos da memória humana, sendo esta fundamental para a compreensão do passado mais recente.

Este artigo pretende fazer uma reflexão teórico-metodológica acerca da História Oral e perceber as aproximações, os limites e as possibilidades do seu uso na produção de conhecimento, nomeadamente na história de Enfermagem.

Foi elaborada uma revisão da literatura baseada nos principais referenciais teóricos na área da História Oral.

Os seguidores da História Nova defendem a História Oral como metodologia, tendo por base um projeto orientador da pesquisa. Este método implica ter em conta a sua especificidade relativamente à seleção dos participantes, à colheita de dados (preparação, realização e gravação da entrevista), e à análise e (re) construção da narrativa, tendo ainda em consideração as suas limitações e considerações éticas.

Através da História Oral podemos produzir conhecimento sobre os enfermeiros, sobre as pessoas de quem se cuida, sobre o quotidiano da profissão e sobre a própria disciplina de enfermagem. Concluimos que a conceção de História Oral como metodologia de pesquisa é adequada para a pesquisa em enfermagem e pode ser utilizada pelos enfermeiros interessados em procurar na experiência dos indivíduos informações ainda não documentadas, capazes de orientar para a melhoria da prática dos cuidados em enfermagem no futuro.
Palavras-Chave
Palavras-chave: história oral, metodologia, história de enfermagem
Abstract
Oral History has its origins in the New History movement, in the mid-twentieth century. Since it’s first appearance it has generated discussions among researchers who question whether it can be considered methodology, technique, knowledge source or discipline. However, it has gained importance as a means of research, overcoming the resistance of traditional historiography.

According to Thompson, Oral History is a story built around people, in which, through oral transmission, it is possible to transmit the knowledge found in human memory, which is fundamental for the understanding of the recent past.

This paper’s aim is to be a theoretical-methodological reflection about Oral History, and to understand the approaches, limits and possibilities of its use in the production of knowledge, namely in the history of nursing.

A review of the literature is herein presented, based on the main theoretical references produced in the field of Oral History.

New History followers advocate Oral History as a methodology, based on a project’s guiding research. This method requires us to take into account its specificity in relation to the selection of participants, data collection (preparation, execution and interview recording), and the analysis and (re)construction of the narrative, as well as its limitations and ethical considerations.

Using Oral History we can produce knowledge about nurses, the people under their care, the day-to-day of the profession, and the nursing subject.

We conclude that framing Oral History as a research methodology is suitable for nursing research and can be used by nurses who are interested in seeking as yet undocumented information in the experience of individuals, which may lead to an improvement in the practice of nursing in the future.
KeyWords
Keywords: oral history, methodology, history of nursing
Artigo

Introdução

A História Oral é uma área emergente da historiografia1 atual, fundamental para a compreensão do passado mais recente. Desenvolveu-se numa relação interdisciplinar das áreas das ciências sociais e humanas, através de histórias de vida, biografias e análise narrativa (Boschma, Scaia, Bonifacio, & Roberts, 2008)2. Surgiu como forma de valorização das memórias e recordações de indivíduos, fazendo a recolha de informação, colhendo as histórias pessoais através da gravação ou vídeo.

Deste modo, é entendida como a recolha de memórias “vivas” através de entrevistas gravadas, baseando-se nas experiências de vida únicas de cada indivíduo. É uma “história viva”, vivida e contada na primeira pessoa, que permite traçar uma imagem rica e completa do passado, explorando aspetos da realidade histórica, normalmente não documentada. As conversas gravadas, enquanto registam as suas experiências do ponto de vista social e cultural e acontecimentos significativos nos quais tomaram parte, proporcionam uma oportunidade de entender mudanças e ocorrências a partir da perspetiva daqueles que as experienciaram (Thompson, 2000)3. Através de “narrativas induzidas e estimuladas, registam-se testemunhos, versões e interpretações sobre a história nas suas múltiplas dimensões: factuais, temporais, espaciais, conflituosas ou consensuais” (Boschma et al, 2008:79).

Bornat, Perks, e Thompson (2000) destacam o valor da História Oral na documentação e análise da transformação, quer da prestação dos cuidados de saúde, quer nas filosofias e organização dos cuidados de saúde, em todo o mundo. Aqueles autores afirmam ainda, que pode ajudar a construir uma imagem mais concreta da prática dos cuidados de saúde no passado e dar uma perspetiva em áreas da vida privada, ao incluir pontos de vista de famílias e doentes, documentando assim o lado recetor dos cuidados de saúde. Deste modo os enfermeiros, ao reunirem evidências sobre o seu trabalho darão a sua contribuição para a melhoria da qualidade dos cuidados de saúde.

O presente artigo tem como objetivos refletir sobre as questões teórico-metodológicas da História Oral; explorar e descrever as várias etapas e os vários instrumentos que podem ser utilizados para a produção de dados nesta abordagem metodológica; perceber as aproximações, os limites e possibilidades do uso da História Oral, quando se pretende usar as memórias do passado, no domínio da enfermagem, para a elaboração de narrativas escritas, que produzam conhecimento.

Ao longo deste artigo serão abordadas a evolução da História Oral, as questões levantadas pelos seus seguidores quanto aos fundamentos teóricos e às implicações metodológicas desta abordagem, nomeadamente as fases dum projeto nesta área, a sua especificidade relativamente à seleção dos participantes, o método de colheita de dados (preparação e realização da entrevista), bem como a análise e (re) construção da narrativa, as limitações/possibilidades da História Oral, as questões éticas e finalmente a importância da História Oral para a Enfermagem.

A análise empreendida no texto tem por base uma revisão da literatura sobre a História Oral alicerçada nos referenciais teóricos de autores como Bloch, Ricoeur, Thompson, Portelli, Grele, Mattoso, Catroga, entre outros e, ainda, a partir do sítio da Oral History Association, das revistas Oral History Review e Nursing History Review, bem como de artigos obtidos em bases de dados eletrónicas.

1 EVOLUÇÃO da História Oral

Na antiguidade o único mecanismo de transmissão cultural era a narração oral de contos, míticos ou tradicionais, que continham os aspectos mais importantes das sociedades primitivas pré-literárias (Siles, 2008). Nesta perspectiva pode dizer-se que a História Oral é tão antiga quanto a própria história, uma vez que esta antes de ser escrita, passou pela oralidade (Luchesi & Lopes, 2011).

Na Idade Média, os relatos para reconstituição de factos e suposições eram comuns, quer como forma de expressão popular, quer como transmissão da cultura, sendo frequentemente assumidos pelos escrivães (geralmente religiosos) que se encarregavam de fazer a redação das passagens consideradas importantes (Luchesi & Lopes, 2011).

No século XIX predomina a história positivista, entendida como padrão do saber, levando os investigadores ao exagero de apenas considerarem fazer a construção da história através dos documentos escritos (considerados fontes primárias), desprezando a obtenção de informação através dos testemunhos orais (Luchesi & Lopes, 2011).

No século XX surge a História Nova (1929), atribuída à Escola dos Annales criada por Lucien Febvre e Marc Bloch4 em França. Estes autores teceram críticas em relação ao tipo de história que se fazia até então, baseada no paradigma tradicional, assumindo o relativismo cultural que está presente nas atividades humanas e, principalmente, na escrita da história. Preocuparam-se em tirar a história do seu isolamento disciplinar e torná-la aberta às problemáticas e metodologias usadas noutras ciências sociais, permitindo a interdisciplinaridade, fazendo a história dialogar com outras ciências, caracterizando-a como história global (Luchesi & Lopes, 2011).

Posteriormente surgem outros investigadores, como LeGoff e Georges Duby, seguidores da Escola dos Annales. Estes, ao romperem com a chamada história factual, política, militar e diplomática, passaram a divulgar a história económica, demográfica, dos costumes e tradições, passando a valorizar as mentalidades, o quotidiano, a arte e a psicologia social, componentes importantes para o entendimento das transformações vividas pelos homens no seu meio (Naveira, 2011). Introduziram a história explicativa em vez da história unicamente narrativa, descritiva ou dogmática, ou seja, a história que retrata a totalidade em oposição à particularidade (Le Goff, 2005).

No entanto, a História Oral só viria a desenvolver-se após a II Guerra Mundial (depois da invenção do gravador), na Universidade de Columbia, Nova Iorque, com Allan Nivins, atingindo o seu apogeu na década de 70, quando os historiadores começaram a explorar as histórias de pessoas comuns muitas vezes ignoradas na historiografia tradicional, tornando-se um recurso com potencial para o estudo de acontecimentos e conjunturas sociais na segunda metade do século XX (Grele, 2007).

De abrangência multidisciplinar tem sido sistematicamente utilizada por diversas áreas das ciências sociais, como a História, a Sociologia, a Antropologia, a Linguística, a Psicologia, entre outras. O uso de fontes orais no trabalho historiográfico é cada vez mais comum. Nos Estados Unidos, Grã-Bretanha, Itália, França e Brasil encontramos uma vasta bibliografia disponível sobre a História Oral e trabalhos publicados a partir desta metodologia de pesquisa.

A História Oral em Portugal é recente e está pouco divulgada. Em 19905 teve início um programa de História Oral no Centro de Documentação 25 de Abril, produzindo-se várias publicações. Entre as instituições que têm projetos nessa área destacam-se vários Museus e instituições do Ensino Superior (Oliveira, 2010)6.

Todavia, só desde 2001 surge como área disciplinar no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa - Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), onde foi criada uma unidade de investigação que coloca a História Oral entre as suas linhas de pesquisa utilizando-a como metodologia em diversos estudos de Doutoramento, nomeadamente no âmbito das profissões, interrelacionando aspetos da história e da sociologia das profissões e história de género. Desde 2006 que decorrem congressos de História Oral em Portugal, indiciando uma História Oral escassa e bastante recente (Oliveira, 2010).

Na área da Enfermagem, segundo Biederman (2001)

o método da História Oral oferece uma abordagem relevante e útil para a investigação. Nos últimos 20 anos, este tipo de pesquisa tem desempenhado um papel significativo na recuperação e gravação de experiências históricas da ‘não-elite’ dos enfermeiros e dos seus pacientes que não têm registo das suas vidas em documentos históricos. Associada a outros métodos qualitativos, a pesquisa de História Oral tem o potencial de criar um reservatório de pesquisa rica e significativa em muitos aspetos de enfermagem. (p.61).

De salientar que a pesquisa dos últimos 20 anos a que se refere a autora ocorreu nos Estados Unidos e em alguns países da Europa. Em Portugal, desde os finais da década de 90 começaram a surgir alguns trabalhos sobre Histórias de Vida, devendo-se essencialmente à investigação realizada nos mestrados e doutoramentos dos enfermeiros, na área das Ciências de Enfermagem, das Ciências da Educação e Estudos sobre as Mulheres.

2 História Oral: metodologia, técnica ou disciplina?

Desde que a História Oral surgiu tem gerado discussão entre os seus seguidores, levando-os a questionarem se esta pode ser considerada como metodologia, técnica, fonte de saber ou disciplina, dificultando o seu avanço teórico e metodológico, parecendo não haver ainda um consenso sobre o assunto (Luchesi & Lopes, 2011).

Os pesquisadores que interpretam a História Oral como metodologia entendem que ela é uma ponte entre a teoria e a prática, que estabelece e ordena procedimentos de trabalho, como os tipos de entrevista e suas implicações para a pesquisa, as possibilidades de transcrição das gravações e as maneiras de lidar com os entrevistados (Ferreira & Amado, 2006).

Os investigadores que a entendem como técnica preocupam-se com as experiências com gravações, transcrições de entrevistas, tipos de aparelhagem de som, formas de transcrição das gravações ou ainda modelos de organização de arquivos. A História Oral dentro desse contexto é um conjunto de procedimentos técnicos para a utilização do gravador em pesquisa e para a conservação das gravações, sendo um produto do cruzamento da tecnologia do século XX com a curiosidade humana (Ferreira & Amado, 2006).

Os autores que a consideram uma disciplina acreditam que ela iniciou técnicas de pesquisa, procedimentos metodológicos singulares e um conjunto próprio de conceitos. Esses pesquisadores não dissociam a História Oral da teoria. Na verdade, reconhecem que ela é uma área de estudos com objetivo próprio e capacidade de gerar soluções teóricas para questões surgidas na prática (Ferreira & Amado, 2006).

Grele (2007)7 afirma que a História Oral é, simultaneamente, um modelo analítico e uma metodologia, sublinhando o seu surgimento como um movimento com propósitos e perspetivas diferentes sobre a natureza da evidência que fornece. Por um lado pode ser vista como uma fonte de informação objetiva, preenchendo as lacunas deixadas na documentação existente, encarando-a como uma prática de arquivo, dando origem a um vasto leque de coleções de História Oral. Por outro, pode ser vista como parte de uma nova história social. Partindo desta perspetiva a História Oral tem como objetivo criar a história da vida das pessoas comuns. Neste sentido, pode ser considerada uma forma de micro-história ou seja a “história de baixo”, fundamentando a história a partir duma perspetiva micro e não macro: a experiência de pessoas comuns no seu dia-a-dia, fornecendo evidência do trabalho e experiência de vida, da qual existe pouca visibilidade escrita (Grele, 2007).

Na opinião de Oliveira (2010), em várias disciplinas das ciências sociais, apesar do testemunho oral ser valorizado, a sua utilização nem sempre é justificada ou sequer reclamada: a História Oral é praticada e o investigador não sente necessidade de a legitimar como metodologia. Os historiadores, em geral trabalhando a partir dos documentos escritos e sendo esta a face mais visível dos seus estudos, quando querem recorrer ao testemunho oral sentem-se obrigados a reivindicá-lo. Isto significa que problemas ou perspetivas de enfoque diferentes exigem respostas diferentes na História Oral, num tempo em que em Portugal também se estão a ensaiar e a trilhar os primeiros caminhos. Apesar dos passos dados, continua a justificar-se a luta pela utilização assumida dos testemunhos orais no trabalho historiográfico, ou seja, o combate pela História Oral enquanto metodologia fértil. O desafio fundamental consiste sobretudo em conseguir desencadear testemunhos orais ricos e efetuar uma crítica rigorosa e pertinente das fontes orais (Oliveira, 2010).

Contudo, excluindo as correntes da historiografia mais conservadora, que remetem a História Oral para o domínio da subjetividade, verificámos que os historiadores começam a utilizá-la progressivamente nas suas obras, com uma importante salvaguarda: desde que entendida como meio e nunca como fim, ou seja como ferramenta, instrumento, mecanismo, recurso (Oliveira, 2010). Seja qual for a designação, a ideia parece clara: não reconhecer dignidade e autonomia à História Oral. Mattoso (1997) por exemplo prefere designá-la por testemunho oral e acredita que só se justifica a sua utilização enquanto instrumento ao serviço de uma interpretação histórica global. Não há, portanto, uma visão consensual como já foi referido.

Nesta perspetiva, na nossa opinião, é preferível realçar as vantagens da sua aplicação adequando-a ao objeto de estudo, no sentido de o clarificar e de facilitar o desenvolvimento do trabalho científico.

Como lembra Paul Ricoeur (2000)

não nos devemos jamais esquecer que tudo começa pelo testemunho, e não pelos arquivos, e que, seja o que for que possa faltar à sua fiabilidade, não dispomos, em última análise, de nada melhor do que o próprio testemunho para asseverar que alguma coisa se passou, à qual cada um declara ter assistido pessoalmente, face ao que, para além do recurso a outro tipo de documentos, nos resta sempre a confrontação entre diferentes testemunhos. (p.182).

3 O projeto de História Oral e as suas fases

À semelhança doutras metodologias, o uso da História Oral deve seguir um projeto e objetivos que direcionem a pesquisa, a escolha do assunto, a formulação duma ideia, as questões de investigação, o inventário das fontes, a validade das fontes, o procedimento das entrevistas, a forma de apresentá-las e a redação do texto, segundo um marco conceptual (Polit & Hungler, 2000). Para Siles (2008), “o projeto é um guia ou orientação sobre como realizar o trabalho através do estabelecimento das suas fases ou etapas, material humano e técnico para o uso e ferramentas de avaliação e validação da pesquisa” (p.56). A História Oral não trata meramente de entrevistas aleatórias com o objetivo de ressuscitar o passado, portanto é necessário haver um plano. Ao elaborar um projeto destes, o investigador deve pesquisar informação para se preparar para todas as fases do processo, isto é, para fazer perguntas informadas deve realizar uma pesquisa preliminar sobre as pessoas e o tema, num contexto mais alargado, em fontes primárias e secundárias.

Segundo Polit e Hungler (2000) uma fonte primária é aquela que nos fornece a informação em primeira mão, através de acervos documentais, arquivos, documentos originais, relíquias ou artefactos, selos, testemunhos, fotografias ou até filmes. As fontes primárias representam a fonte mais direta de eventos ou situações históricas (Polit & Hungler, 2000). A este propósito Vieira e Ferreira (2008) referem que

as histórias orais, enquanto fontes primárias, podem ser um importante instrumento de investigação, já que relatam em primeira mão os acontecimentos e experiências de vida e fornecem informações habitualmente não disponíveis noutros registos. As histórias orais, no âmbito da investigação histórica, precisam ser conduzidas sistematicamente, fazendo as mesmas perguntas às diferentes testemunhas e analisando com rigor a veracidade (agora filtrada pela memória) e o significado atribuído às palavras usadas (p.171).

As fontes secundárias são repetições em segunda ou terceira mão a respeito de eventos ou experiências históricas, como por exemplo os livros de referência e enciclopédias, ou seja, são descrições de acontecimentos escritas por indivíduos, que resumem ou interpretam o material de fontes primárias. Na opinião dos mesmos autores as fontes secundárias ajudam o investigador a ter uma imagem do que antes foi escrito, orientam para outras fontes e indicam vários fatores a considerar, podendo evitar perdas de tempo e frustração, quando se verifica que outros tentaram e pouco conseguiram sobre o mesmo tema, ou que o nosso tema está já explorado, levando muitas vezes à reformulação das nossas questões. (p.170).

Sempre que possível deve-se recorrer a fontes primárias na investigação histórica. À medida que a informação se afasta do acontecimento histórico torna-se menos fiável, os dados são menos objetivos e a dificuldade da sua compreensão aumenta (Polit & Hungler, 2000). Um projeto de História Oral deve privilegiar as fontes primárias.

3.1 Seleção e amostragem: as fontes orais

A seleção dos participantes na maior parte dos projetos de pesquisa histórica é feita através da amostragem não probabilística, como por exemplo a amostragem de conveniência, pois o que se pretende é a representatividade da experiência em estudo e não a generalização da informação. A participação em amostras de conveniência é “case-oriented” e “não aleatória”. Estas incluem indivíduos com base no conhecimento pessoal do acontecimento ou fenómeno, assim como a habilidade, vontade ou disponibilidade para partilhar esta experiência com outros (Boschma et al, 2008). Fortin (2009) utiliza a designação “amostragem por redes” também denominada “em bola de neve”, cuja técnica consiste em escolher sujeitos que seriam difíceis de encontrar de outra forma. Logo que o investigador encontra sujeitos que satisfazem os critérios escolhidos, pede-lhes que indiquem outras pessoas com características semelhantes (Fortin, 2009). Segundo a Oral History Association (1989)9 significa também, escolher narradores potenciais com base na relevância das suas experiências (Oral History Association, 2009).

O importante é localizar “indivíduos chave”, recomendando-se iniciar pelas pessoas mais idosas que terão mais informações. Apesar de se fazer uma lista inicial de entrevistas, o investigador está sujeito à não disponibilidade do(s) indivíduo(s), ao aparecimento de indivíduos novos, ou documentos novos no decorrer do estudo (Luchesi & Lopes, 2011). O número de entrevistados pode variar de 1 a n, mas geralmente espera-se que os resultados possam produzir saturação. Na conceção de Bertaux (1991), citado por Fortin (2009), significa incluir tantos sujeitos quanto os necessários para atingir a saturação dos dados. A mesma autora adverte que se pode atingir depressa a saturação com um grupo homogéneo, mesmo quando este grupo é de tamanho reduzido (Fortin, 2009). Na opinião de Luchesi (2011), o número de entrevistas pode variar muito, dependendo do objeto que se deseja investigar e do acesso aos participantes. Neste sentido o que importa é a qualidade das informações obtidas e não o número dos sujeitos (Luchesi & Lopes, 2011).

3.2 Colheita de dados: a entrevista

De acordo com os propósitos da pesquisa, é possível escolher o tipo de entrevista a ser realizada: entrevistas temáticas ou entrevistas de história de vida (Alberti, 2005).

As entrevistas temáticas versam sobre a participação do entrevistado no tema escolhido, enquanto as de história de vida têm como centro de interesse o próprio indivíduo na história, incluindo a sua trajetória desde a infância até o momento em que fala, passando pelos diversos acontecimentos e conjunturas que presenciou ou vivenciou (Poirier, Clapier-Valladon, & Raybbaut, 1999; Alberti, 2005). Ambos os tipos de entrevista na História Oral pressupõem a relação com o método biográfico, seja concentrando-se sobre um tema, seja debruçando-se sobre um indivíduo e os cortes temáticos efetuados na sua trajetória (Alberti, 2005).

Decidir entre um ou outro tipo de entrevista a ser realizada depende dos objetivos do trabalho. Em geral, a escolha de entrevistas temáticas é adequada para o caso de temas que têm estatuto relativamente definido na trajetória de vida dos participantes como, por exemplo, um período determinado cronologicamente, uma função desempenhada ou o envolvimento e a experiência em acontecimentos ou conjunturas específicas. Nesses casos, o tema pode ser de alguma forma “extraído” da trajetória de vida mais ampla e tornar-se o centro e objeto das entrevistas (Alberti, 2005). É possível que em determinado projeto de pesquisa sejam escolhidos ambos os tipos de entrevista como forma de trabalho, dependendo da adequação desse procedimento aos propósitos do projeto (Alberti, 2005).

3.2.1 Preparação da entrevista

Ao preparar a entrevista, o investigador deve decidir que indivíduos vão ser entrevistados, tendo em conta o foco principal do projeto (por exemplo, se se vai entrevistar enfermeiros reformados, enfermeiras que trabalharam em hospitais urbanos ou parteiras que trabalharam no meio rural). Deve estabelecer prioridades para realizar as entrevistas, decidindo quais se devem realizar em primeiro lugar, em função da relevância dos sujeitos a estudar, tendo em conta os objetivos do projeto, as condições físicas dos entrevistados (saúde, idade e lucidez) e a disponibilidade dos mesmos. Deve determinar também os mecanismos adequados para contactar os potenciais entrevistados e solicitar a sua participação, pessoalmente, por carta ou por telefone, descrevendo o tema geral e a finalidade da entrevista (Siles, 2008).

Os entrevistadores devem preparar uma entrevista semiestruturada com as questões a serem colocadas, como guia para o diálogo gravado, de acordo com o tema do projeto, adaptando a entrevista ao esquema biográfico do entrevistado, procurando utilizar uma linguagem clara e sem ambiguidades (Poirier et al, 1999; Siles, 2008). Deve decidir como usar esse guia de entrevista por exemplo adiantando uma cópia das questões fundamentais ao entrevistado para que prepare melhor as respostas, ou faça a colheita de algum tipo de material, como livros, manuais, diários, registos, recortes de jornal ou fotografias, que o leve a recordar certos acontecimentos ou em contrapartida, não adiantar quaisquer questões e desenvolver a entrevista de forma que promova a espontaneidade (Siles, 2008).

Deve ainda selecionar as formas de gravação do material. De preferência deve usar um bom equipamento de gravação digital de modo a reproduzir a voz do narrador com precisão e, se necessário, outros sons, assim como imagens visuais ou fotografias. Antes da entrevista, o entrevistador deve familiarizar-se com o equipamento e a sua funcionalidade (Oral History Association, 2009).

3.2.2 Realização da entrevista

A entrevista deve ser realizada numa sala silenciosa com o mínimo possível de distrações e ruídos de fundo. No princípio da entrevista devem-se registar os nomes do narrador e do entrevistador, dia e ano da sessão, local da entrevista e tema proposto da gravação, sobretudo se esta ficar arquivada para uso em futuras investigações.

No início de cada sessão o entrevistador deve centrar os seus pensamentos e os do narrador nos objetivos do tema. Deve começar por fazer perguntas para estimular a memória, guiando gentilmente a conversa com tópicos ordenados cronologicamente, mas deixando ao narrador a liberdade de escolher o seu discurso (Oral History Association, 2009).

Ainda segundo a Oral History Association (1989), a entrevista no contexto da História Oral distingue-se das outras formas de entrevista pelo seu conteúdo e extensão. As entrevistas em profundidade procuram obter dados da experiência pessoal e as reflexões dessa mesma experiência, sendo necessário dar tempo suficiente aos narradores para contarem a história na sua plenitude.

A duração da entrevista deve ser acordada previamente entre ambas as partes. O entrevistador deve avaliar se o narrador está cansado e, se isso acontecer, deve perguntar se este pretende continuar. Embora a maioria das entrevistas durem cerca de duas horas, se o narrador pretende continuar, o seu desejo deve ser respeitado, se possível, ou então lembrar que pode retirar-se da entrevista ou recusar responder a uma pergunta a qualquer momento (Oral History Association, 2009).

O investigador deve esforçar-se por alcançar um equilíbrio entre os objetivos do projeto e as perspetivas dos entrevistados, tentando explorar plenamente todas as áreas adequadas à investigação e não ficar satisfeito com respostas superficiais. Ao mesmo tempo, deve incentivar os narradores a responderem às perguntas no seu próprio estilo e linguagem e a abordar questões que retratem as suas preocupações (Oral History Association, 2009). Também pode tentar alargar a investigação para além do tema específico do projeto para criar um registo tão completo quanto possível para o benefício de possíveis investigações futuras, caso o material gravado fique guardado num arquivo de História Oral. Tendo em conta a importância desta para a compreensão do passado e do custo e esforço envolvidos, entrevistadores e entrevistados devem esforçar-se por registar informações fidedignas, defendendo a honestidade intelectual, evitando estereótipos, deturpações ou manipulações das palavras dos narradores (Oral History Association, 2009).

3.3 A narrativa e a sua análise

O narrador, que conta a sua história ou dá o seu depoimento de vida, não se constitui, ele próprio, no objeto de estudo, mas sim os seus relatos de vida, a sua realidade vivida, apresentando subjetivamente os eventos vistos do seu ponto de vista e a sua perceção dos factos, possibilitando conhecer as relações sociais e as dinâmicas que dizem respeito ao objeto de estudo. Assim, na perspetiva de Portelli (2003)9, “busca-se a versão dos factos, pressupondo a existência de lacunas espaciais e temporais e aceitando a subjetividade implícita no relato, tanto da parte do narrador, quanto do pesquisador que procede à sua colheita de dados” (p.67).

Ao contar histórias as pessoas ordenam, organizam e reorganizam o seu passado, que é composto de experiência de vida, memórias, linguagem, interação, crenças e o contexto de vida alargado. No processo interativo da construção da história, narrador e entrevistador constroem o sentido e produzem um texto (Tonkin, 1992).

As narrativas orais constituem-se assim na principal fonte de pesquisa, as quais permitem, em situação de entrevista, a colheita de dados, não dispensando, contudo, a consulta dos outros suportes de pesquisa sobre o tema em estudo.

Depois de concluídas as entrevistas, quando o pesquisador começa a analisar e a interpretar o texto, o processo de construção termina e a história passa a ser do historiador. Como refere Sangster (2003:87) “embora o contar da história possa ter a forma de cocriação, sugerindo uma iniciativa partilhada, ou até partilha de poder, à medida que o ‘ouvinte’ se transforma em ‘intérprete’, a ‘voz’ transforma-se na do historiador profissional”.

A escrita e as narrativas orais não são fontes eliminatórias entre si, mas complementam-se, encerrando cada uma caraterísticas e funções específicas, bem como a exigência da utilização de métodos de análise próprios.

A interpretação da narrativa procura compreender como é que as experiências subjetivas e individuais de pessoas comuns são moldadas e ao mesmo tempo possam ser tidas como exemplos de processos sociais mais alargados, mas essa interpretação final é a do pesquisador, que a deverá fazer com rigor.

A interpretação histórica, refere Thompson (2000), enfatiza mais a análise, quer seja uma análise narrativa ou uma reconstrutiva contra-análise. Nesta última, o propósito é “construir um argumento sobre padrões de comportamento ou acontecimentos no passado” (Thompson, 2000:271), que pode incluir uma análise de informação demográfica ou numérica. Por outro lado, na análise narrativa, a entrevista é tratada como um texto e preocupa-se com “linguagem, temas, repetições, silêncios, e a forma como o narrador experienciou, lembrou e recontou a sua história de vida” (Thompson, 2000:270).

A peculiaridade da fonte oral reside na riqueza oferecida pela rede de símbolos, sentimentos e emoções, palavras, expressões chave, a atitude geral do corpo, o próprio olhar, os gestos e a mímica expressa pelo narrador ao pesquisador, permitindo, que se apreenda os seus significados e conotações, pelo tom ou volume, ritmo ou pausa, pontuação, intenção, perguntas sem resposta ou mudanças de discursos e oscilações revelados pelo entrevistado, em forma de dados compilados quer em quantidade quer em qualidade, os quais, muitas vezes se descobrem mais pelo ato de ouvir, que de escrever (Poirier et al, 1999; Portelli, 2003).

No entanto, não considerar estes elementos significa uniformizar o conteúdo emocional das narrativas ao nível da objetividade das fontes escritas, não valorizando o fator primordial da subjetividade das fontes orais. Estas contam-nos o lado psicológico e emocional das pessoas, quanto não só ao que fez, mas também o que queria fazer, o que acreditava estar fazendo e o que agora pensa que fez (Portelli, 2003).

4 Limitações da História Oral

Apesar do uso crescente da História Oral, a sua credibilidade também tem sido contestada por parte de alguns académicos no que diz respeito à subjetividade, à memória, ao tempo e à (re) construção das narrativas.

Grande parte do debate questiona se as evidências subjetivas colhidas através de memórias são fiáveis ou não (Luchesi & Lopes, 2011; Tonkin, 1992) alegando que o entrevistado pode ter falhas de memória, criar uma trajetória artificial, enfatizar o seu papel na história, fantasiar, omitir ou mesmo faltar à verdade. Contudo os historiadores contrapõem que fontes orais e escritas são igualmente credíveis (Grele, 2007). O objetivo da História Oral não é distinguir “verdade versus mentira” ou obter uma história de forma objetiva e positivista, mas sim a forma como os acontecimentos são recordados (Portelli, 2003). Deste modo, as memórias devem ser submetidas a uma análise histórica rigorosa, tal como qualquer outra fonte primária (Boschma et al, 2008), isto é, devem ser submetidas a uma análise hermenêutica e heurística tão rigorosa como qualquer documento escrito10.

As memórias mudam através do tempo e através do processo de recolha, seleção, e interligação com outras memórias, originando “um trabalho incessante de interpretação e reinterpretação e de organização do significado” (Portelli, 2003:63). Nenhum registo quer seja oral quer seja escrito, ou retratado, fala por si só e requer sempre uma interpretação cuidadosa (Boschma et al, 2008). Portanto, o recordar acontecimentos, independentemente de serem orais ou escritos, é uma interpretação (Portelli, 2003).

A História Oral permite ao narrador a liberdade de expressar ideias e pensamentos que só podem ser preservados se forem passados à forma escrita. Esta liberdade tem também os seus constrangimentos, porque o entrevistador e o entrevistado participam num processo estruturado e ao mesmo tempo interativo, conforme foi referido, quer seja numa única entrevista ou numa série de entrevistas (Biedermann, 2001). Neste processo dinâmico de co-construção o narrador e o investigador envolvem-se na criação de evidência histórica, mas não ao mesmo nível, podendo esta relação afetar a forma como a história é contada, como é construída, os temas que emergem (Boschma et al, 2008) e por sua vez a construção da interpretação (Thompson, 2000; Sangster, 2003). À medida que o narrador relembra acontecimentos passados, a narração desses factos e até o significado que os mesmos têm para o narrador, pode ser influenciado e alterado pelo contar da história no presente, incluindo o ambiente em que a história é contada e os acontecimentos importantes decorrendo no presente, relacionados com o assunto. A forma como os significados mudam ao longo do tempo é revelada, não só no relato da história mas também o modo como a história é organizada cronologicamente e a ênfase temporal que é colocada em certos acontecimentos (Boschma et al, 2008).

Além disso, outro fator limitador pode ser o ponto de vista do entrevistador. Este é um participante ativo na criação de evidência e significado no processo de pesquisa e traz consigo para a entrevista a sua própria interpretação, as suas próprias questões, convicções e contradições, assim como as influências de raça, classe, cultura, educação e estatuto profissional (Boschma et al, 2008).

O pesquisador deve, na análise da narrativa, estar atento ao modo como todos estes fatores influenciam a narrativa e deve incluir a sua própria análise destes mesmos fatores na interpretação da(s) entrevista(s) (Boschma et al, 2008).

Na opinião de Oliveira (2010) aquilo que alguns consideram os limites dos testemunhos orais, deve ser perspetivado como especificidades e merecer uma utilização adequada, como as de qualquer outro tipo de fontes. As memórias suscitadas, sujeitas à crítica do testemunho e cruzadas com outro tipo de fontes, representam um contributo essencial e, muitas vezes, insubstituível para a análise dos problemas históricos, permitindo investigar novas questões, formular novas hipóteses e chegar a novos resultados. No dizer de Oliveira (2010) “com a utilização da História Oral, é uma outra história que é possível” (p.152).

A memória também tem sido entendida entre os historiadores orais como objeto de investigação histórica, afastando-se do ponto de vista da História Oral como fonte ou “conjunto de factos que aconteceram na cabeça das pessoas” (Thompson, 2000:272). Nesta forma de ver o conceito de memória, tornou-se fundamental o retorno às ideias de Maurice Halbwachs (1950) que, em 1925, escreveu sobre a memória coletiva, em que o objetivo da investigação histórica passa a ser a relação entre a história pessoal, a história coletiva ou a história pública. Neste contexto Fernando Catroga (2001) partilha da mesma opinião referindo que “a memória individual é formada pela coexistência, tensional e nem sempre pacífica, de várias memórias (pessoais, familiares, grupais, regionais, nacionais) em permanente construção devido à incessante mudança do presente em passado e às consequentes alterações ocorridas no campo das representações do presente” (p.16).

5 Questões éticas: consentimento informado

Devido à participação de entrevistados na pesquisa em História Oral, é necessário ter em consideração os códigos éticos e linhas de conduta numa pesquisa que envolve pessoas.

Os investigadores devem submeter os projetos e os pedidos de consentimento informado para as entrevistas, às comissões de ética das instituições (se for o caso) e aos entrevistados. Este acordo deve ser dado assinando um termo de consentimento ou gravando uma declaração oral de consentimento, prévio à entrevista.

Os entrevistados devem ser inteiramente informados sobre o objetivo e o procedimento da entrevista, de forma a darem o seu consentimento. Por conseguinte, todas as entrevistas devem ser conduzidas de acordo com os objetivos estabelecidos e dentro dos parâmetros do consentimento (Oral History Association, 2009).

Muitas vezes os participantes são selecionados pela sua identidade e experiência e consequentemente as entrevistas não são anónimas e a informação que o entrevistado partilha não é confidencial. Devido à importância do contexto e identidade numa narrativa de História Oral, é boa prática identificar os narradores pelo nome. No entanto, dependendo da natureza do projeto, pode ser importante proteger a identidade dos entrevistados. O uso de pseudónimos e exclusão de informação identificável nas narrativas pode ser uma estratégia por vezes necessária e válida (Boschma et al, 2008).

Frequentemente o objetivo de uma entrevista de História Oral é preservar a entrevista para pesquisas futuras e ser guardada num arquivo existente ou em coleções de História Oral. Neste caso os participantes devem ser informados e consentir na preservação e/ou publicação das entrevistas num repositório permanente. Os entrevistados possuem direitos autorais sobre as suas entrevistas até que transfiram esses direitos ao investigador ou instituição. É importante assegurar que os narradores entenderam a extensão dos seus direitos sobre a entrevista e o pedido para que esses direitos sejam transferidos para um repositório, bem como o seu direito de impor restrições à utilização do material (omissão ou revisão do depoimento) (Oral History Association, 2009). Apresentar uma transcrição fidedigna e completa da entrevista transcrita ao entrevistado contribui de forma importante para a integridade ética do processo de entrevista (Boschma et al, 2008).

Toda a gestão, utilização e divulgação do conteúdo das entrevistas compete ao investigador e devem estar bem definidos no protocolo de pesquisa constando no consentimento informado dos entrevistados (Boschma et al, 2008; Oral History Association, 1989).

6 A História oral e a enfermagem

A historiografia em Enfermagem teve início a partir do trabalho que um grupo de historiadores anglo-saxónicos realizou durante a segunda década do século XIX (Siles, 2008). Entre os estudos que chegaram a Portugal em meados do século XX, sobretudo para a Escola Técnica de Enfermeiras (ETE) e para a Escola de Enfermagem de Artur Ravara encontram-se os de Jamieson e Sewall, de Dock e Stewart, de Goodnows e de Austin e Stewart. Estes estudos relacionam o desenvolvimento da Enfermagem com os acontecimentos mundiais das épocas analisadas (Nunes, 2003:18).

Em Portugal, até finais do século XX, as questões históricas da saúde e dos profissionais da saúde foram em grande parte abordadas no âmbito da história da medicina pois, sendo esta a profissão dominante e a que mais evoluiu em termos científicos, verificou-se maior número de publicações sobre a sua história. Estas obras são maioritariamente escritas por médicos e pouca ou nenhuma referência fazem à enfermagem e aos enfermeiros, ou se o fazem é sempre na perspetiva da sua relação com o progresso da Medicina.

Os trabalhos de investigação desenvolvidos por enfermeiros na área da História de Enfermagem no nosso país, surgiram na década de 90, mas são ainda escassos, conforme já foi referido no capítulo 1. Da pesquisa efetuada no repositório da Biblioteca Nacional e no Repositório Científico de Acesso Aberto em Portugal (RCAAP), citamos alguns que recolheram os testemunhos orais de enfermeiros: Remexendo o Baú de um serviço: contributo para a história do papel da enfermeira nos serviços de proteção materno-infantil, no distrito de Ponta Delgada (Raposo, 2001); A arte de partejar: como se ajudava a nascer na Madeira entre 1840-1974 (Soares, 2002); Ajudar a nascer: parteiras, saberes obstétricos e modelos de formação (séculos XV – XX) (Carneiro, 2008); Formação, Género e vozes de Enfermeiras (Morais, 2008); Do curandeiro ao diplomado: história da profissão de enfermagem em Portugal (1886-1955) (Silva, 2010) e Vidas de Enfermeiras (Freitas, 2012). Estes estudos utilizaram o método histórico, o método biográfico ou as histórias de vida, recorrendo a fontes orais como fontes primárias.

O desenvolvimento da Enfermagem e dos enfermeiros passa necessariamente pelo conhecimento da sua História. Neste caso, a memória através da História Oral, pode contribuir muito para a construção da História da Enfermagem. Percebe-se assim a necessidade de continuar realizando investigações históricas nesta área, procurando difundir os resultados entre a própria classe de enfermeiros e a sociedade de um modo geral, de tal modo que estas reconheçam o seu valor e o seu papel desempenhado na comunidade. O conhecimento da História é indispensável para compreender como a profissão se tem construído e avançado ao longo do tempo e no mundo.

A título de exemplo, no Reino Unido existe um projeto internacional, no âmbito específico da História Oral, desenvolvido no “Nurses Voices Oral History Centre” que está sediado na Faculty of Health and Social Care Sciences at Kingston University and St. George’s, University of London. Este centro já reuniu mais de 300 entrevistas a enfermeiros e parteiras que trabalharam desde 1929 até à atualidade, em 3 hospitais escolares de Londres, com o objetivo de criar uma coleção de memórias, relatando os acontecimentos e mudanças verificadas na enfermagem, ao longo deste período (www.nursing.manchester.ac.uk).

A criação de um arquivo permanente de História Oral também seria vantajoso para a classe e para a profissão de Enfermagem no nosso país. Neste sentido, fica aqui lançado o repto às associações profissionais, nomeadamente à Associação Nacional de História da Enfermagem, à Sociedade Portuguesa de História da Enfermagem, à Ordem dos Enfermeiros, às Escolas Superiores de Enfermagem ou respetivas Unidades de Investigação, para procederem à sua concretização de modo a salvaguardarem-se fontes primárias, ou seja, os testemunhos vivos do passado recente, dos enfermeiros portugueses, antes que estes se percam para sempre.

7 Considerações finais

A História Oral, como método de investigação com base no testemunho do entrevistado sobre factos que tenha experienciado, vem tendo uma importância crescente em todo o mundo, vencendo resistências e preconceitos da historiografia tradicional, provocando uma reflexão contínua sobre os seus fundamentos teóricos, bem como as implicações metodológicas desta abordagem.

Os projetos de História Oral privilegiam o diálogo entre sujeitos considerando as suas memórias, identidades e narrativas. A partir das inter-relações estabelecidas entre entrevistado/entrevistador ocorre a construção de narrativas que se referem à experiência de pessoas e grupos. A História Oral busca registrar a memória viva construindo uma imagem abrangente e dinâmica do vivido a partir de um processo de pesquisa. Assim, a memória individual ganha sentido em História Oral quando se insere no conjunto social das demais memórias, a coletiva ou a pública.

Os investigadores atuais da História da Enfermagem podem contar com uma extensa literatura que oferece orientação para o desenho da pesquisa em História Oral. Esta é uma metodologia crucial para captar o passado na História da Enfermagem porque na generalidade os enfermeiros deixaram poucos registos sobre a sua profissão. O seu potencial é grande para explorar as mudanças na Enfermagem e na prática dos cuidados de saúde, do ponto de vista quer do profissional quer do utente, contudo está ainda numa fase muito inicial. Ouvir os enfermeiros, os utentes e/ou as famílias enriquece a nossa compreensão histórica sobre os cuidados de saúde, permitindo-nos obter uma perceção próxima dos problemas da prática de Enfermagem, a partir da perspetiva das pessoas que os viveram ou experienciaram.

Neste sentido, conclui-se que a História Oral como opção de pesquisa constitui uma via primordial para a compreensão da memória e da História da Enfermagem. O desafio de utilizar a História Oral, para conhecer o percurso da Enfermagem, permite conhecer as raízes da sua identidade para o entender e divulgar no presente, tendo em vista o futuro.

Espera-se que este trabalho contribua para estimular o desejo de aprofundar os conhecimentos nesta temática, bem como despertar o interesse quer dos enfermeiros quer das suas associações profissionais, pela investigação em Enfermagem norteada pela metodologia da História Oral.


Bibliografia

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