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Administração de Terapêutica Antineoplásica: Intervenção de Enfermagem no Alívio do Sofrimento
Basto, Marta, *, ESEL
Lopes, Maria, *, ESEL
Sá, Eunice, *, ESEL
Artigo

Introdução:

O sofrimento é uma constante na vida das pessoas com doença hemato-oncológica, não só pelas representações sociais ligadas à doença oncológica, como pela incerteza da trajetória da doença, bem como pelos efeitos secundários inerentes ao tratamento medicamentoso.

Nestas pessoas, o largo tempo utilizado na administração de terapêutica pelos enfermeiros faz com que estes momentos tenham um potencial terapêutico na obtenção de resultados positivos no alivio do sofrimento, se houver conhecimento, intenção e um modo próprio de agir neste domínio dos cuidados, nomeadamente ser individualizado e único, junto de cada pessoa internada. Sendo o sofrimento uma experiência individual, subjetiva e multidimensional, de total interação com o quotidiano dos enfermeiros está justificado o interesse do estudo. O centrar os cuidados na pessoa doente é entender a doença como uma fonte de sofrimento e, este como um fenómeno multidimensional cujo alívio exige, o reconhecimento e a compreensão como uma vivência individual.

Objetivos: Pretendemos com este estudo avaliar o resultado da intervenção de enfermagem “administração de quimioterapia como intervenção de enfermagem individualizada ” no alívio do sofrimento da pessoa adulta internada com doença hemato-oncológica.

Método: Utilizamos um desenho multimétodo seguindo as etapas do procedimento metodológico para investigar intervenções complexas em saúde - Modelo de desenvolvimento, viabilidade/pilotagem, avaliação e implementação. Os participantes dos estudos foram todos os enfermeiros e os doentes ocasionais internados num hospital da zona da grande Lisboa, que respeitavam os critérios de inclusão em cada estudo.

Decorrente dos estudos descritivo e exploratório efetuados na fase de desenvolvimento foi modulado o protocolo da intervenção, com consensualização das componentes desta pelos enfermeiros co-investigadores e, no desenho do estudo de viabilidade/pilotagem foram medidos os resultados desta, com a aplicação do Inventario das Experiencias Subjetivas do Sofrimento na Doença (IESSD), do Termómetro do Distress e da Escala visual da Dor, prévio e após os três dias consecutivos de administração de quimioterapia anti- neoplásica, num estudo quasi-experimental. Para a verificação da hipótese central e das secundárias aplicou-se o teste manova com medidas repetidas com um fator intra-sujeitos e com fatores inter-sujeitos, com todas as variáveis dependentes do estudo. Foram cumpridos os procedimentos éticos tanto a nível organizacional como dos participantes.

Resultados e discussão: Verificamos que o alívio do sofrimento, enfatiza os cuidados focados na pessoa e não na doença, dando destaque à importância das competências relacionais e de ajuda, nomeadamente a escuta, respeito e a individualidade. O estudo exploratório identificou as atividades de enfermagem desenvolvidas no contexto de internamento para aliviar o sofrimento detetado e o estudo descritivo a perceção dos enfermeiros sobre cuidados individualizados, criando as condições para o estudo de pilotagem quase experimental, longitudinal, com a implementação da intervenção: “Administração de Quimioterapia como uma Intervenção de Enfermagem (Individualizada) “. Verificamos que independentemente do momento de avaliação (pré e pós – intervenção), o nível médio de Sofrimento “físico, psicológico, existencial e socio-relacional”, da Dor e do Distress, é maior no grupo controlo do que no grupo experimental. Salienta-se que o encontro com o enfermeiro, com o pressuposto do conhecimento da pessoa, foi prévio à administração de quimioterapia antineoplásica, com o processo de avaliação diagnostica e em que a enfermeira acede e colhe informação da pessoa doente.

Conclusão: O tempo utilizado na administração da quimioterapia, se for utilizado de forma intencional e evidenciando as competências relacionais, pode tornar-se num cuidado que alivia o sofrimento, ao invés de ser um ato meramente técnico. Para isso acontecer importa centrar os cuidados na pessoa doente, ou seja, conhece-la, fazer uma avaliação diagnóstica das suas potencialidades e integrar o alívio do sofrimento na vivência individual única de cada pessoa doente dinamizando as forças promotoras de vida.

Palavras-chave: doença hemato-oncológica; sofrimento; alívio do sofrimento; administração de terapêutica. intervenção de enfermagem.

Referências

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