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“Adaptar a Alimentação ao Desejo da Pessoa em Fim de Vida: Intervenção de Enfermagem”
Oliveira, Célia, *, Escola Superior de Enfermagem de Lisboa
Basto, Marta, *, Escola Superior de Enfermagem de Lisboa
Alves, Patrícia, *, ESEL
Artigo

iNTRODUÇÃO:

Apresenta-se um dos achados do estudo de investigação “Processo de cuidados de enfermagem à pessoa em fim de vida no desempenho da atividade de vida (AV) comer e beber”: a categoria Adaptar a alimentação ao desejo da pessoa em fim de vida.

Alimentar-se não constitui somente o ato de comer para manter as funções orgânicas, tem também um cariz simbólico, ou seja, é associada ao crescimento, à manutenção da saúde, ao amor, a crenças, ao convívio, a celebrações e ao prazer (Watson, 1985; Nunes e Breda, 2001; Roper, Logan e Tierney, 2001; Amon & Menasche, 2008). Ao longo do processo de saúde-doença podem ocorrer alterações naquela AV que, na pessoa em fim de vida, podem tornam-se mesmo um dos seus principais problemas (Morss, 2006) devido ao descontrole sintomático, constituindo a alimentação, muitas vezes, um ponto de divergência entre o que a pessoa em fim de vida deseja e aquilo que a família pensa ser adequado, criando também dilemas aos profissionais de saúde. Pela escassez de evidência científica relativa a este fenómeno (Alves, 2013), desenvolvemos o presente estudo para responder à questão de investigação: Qual o processo de cuidados de enfermagem à pessoa em fim de vida no desempenho da AV comer e beber?

Metodologia: Investigação ancorada no raciocínio abdutivo e sob a perspectiva orientadora do interaccionismo simbólico; adopta o método da Grounded Theory Strausseriana (Strauss & Corbin, 2008). Os participantes são: enfermeiros que cuidam de pessoas em fim de vida em unidade de internamento de cuidados paliativos (num hospital de Lisboa), doentes em fim de vida, conscientes, cuidados por estes enfermeiros e sua família/pessoas significativas. As técnicas de colheita de dados são: observação participante; entrevista semiestruturada aos enfermeiros; análise documental de registos de enfermagem.

Resultados: No processo de cuidados emerge a categoria “Adaptar a alimentação ao desejo da pessoa em fim de vida”, em que ocorrem as intervenções: aliviar o desconforto da pessoa, gerir o risco de vida da pessoa, capacitar a pessoa, ultrapassar o convencional, ultrapassar o improvável, flexibilizar alimentação, dosear insistência, mobilizar a família, mobilizar a equipa, mediar divergências pessoa-família, gerir o seu próprio sentir, sob as condições: conhecer a pessoa e família, hospital flexível, enfermeiro humano e competente. As consequências emergentes são: vivência da pessoa e família com maior qualidade, vivência profissional do enfermeiro com maior qualidade.

Conclusão: A categoria apresentada constitui uma intervenção central no processo de cuidados estudado e é muito complexa, não só porque as condições em que ocorre requerem, da parte do enfermeiro, um conhecimento aprofundado e permanentemente atualizado, da pessoa doente e também da família. O contexto onde este adaptar ocorre também é crucial, pois o hospital tem de ter uma flexibilidade que permita esta adaptação e as próprias caraterísticas do enfermeiro também condicionam esta adaptação. Os resultados sugerem ganhos em saúde e ganhos para o profissional.

Apesar dos enfermeiros estarem atentos aos hábitos e gostos da pessoa em fim de vida na alimentação, às suas atividades diárias, à sua capacidade para se alimentar, ao existir um desejo expresso da pessoa no âmbito da alimentação - “desejo irracional” e “desejo deliberado” (Ferrater Mora, 1991; Tonnetti & Meucci, 2013), as intervenções de enfermagem são dirigidas para esse desejo da pessoa de forma a satisfazê-lo, nem que para isso os enfermeiros tenham de ultrapassar o convencional e ultrapassar o improvável. Torna-se, assim, claro que neste processo de cuidados de enfermagem à pessoa em fim de vida no âmbito da AV comer e beber, a intervenção de enfermagem e os recursos hospitalares são centrados no desejo da pessoa e nas suas prioridades, remetendo para uma filosofia de cuidados centrados na pessoa.

Palavras-chave: atividade de vida comer e beber, autonomia, cuidados centrados na pessoa, intervenção de enfermagem, pessoa em fim de vida.

Referências

Alves, Patrícia (2013). Intervenção do enfermeiro que cuida da pessoa em fim de vida com alterações do comer e beber. Pensar Enfermagem, 1º semestre, vol. 17, nº1, 7-30.

Amon, D. & Menasche, R (2008). Comida como narrativa da memória social. Sociedade e Cultura, Vol.11, nº 1, jan./jun. 2008, 13-21.

Ferrater Mora, J. (1991). Dicionário de filosofia. Lisboa: Publicações Dom Quixote.

Morss, S (2006). Enteral and Parenteral Nutrition in terminal ill cancer Patients: A review of the literature. American journal of Hospice &Palliative care, 23 (5), 369-377.

Nunes, E. & Breda, J. (2001). Manual para uma alimentação saudável em jardins de infância. Lisboa: Direção Geral da Saúde, Divisão de Promoção e Educação para a Saúde.

Roper, N., Logan, W. & Tierney, A. (2001). O modelo de enfermagem Roper-Logan-Tierney. Lisboa: Climepsi Editores.

Strauss A. & Corbin, J. (2008). Pesquisa Qualitativa – técnicas e procedimentos para o desenvolvimento de teoria fundamentada. 2ª edição. Porto Alegre: Artmed.

Tonnetti, F. & Meucci, A. (2013). Desejo, Vontade & Racionalidade – Coleção Miniensaios de Filosofia. Petrópolis: Vozes. 

Watson, J. (1985). Nursing: the philosophy and science of caring. Colorado: Colorado Associated University Press.