REVISTA
 

 
 
Editorial
Número: 1, Volume: 18
1º Semestre de 2014

Transdiciplinaridade… um contributo para Pensar a Enfermagem

‘The modern pathology of mind is in the hyper-simplification that makes us blind to the complexity of reality.’ (Morin 2008)

A propósito do “Encontro de Doutorandos de Enfermagem da UL 2014”, que decorreu nos dias 21 e 22 de Maio no Salão Nobre da Reitoria da Universidade de Lisboa subordinado ao tema “Investigação como um caminho para a transdisciplinaridade, ocorreu-me fazer uma breve reflexão sobre a pertinência de perspectivar a enfermagem no quadro da transdisciplinaridade.

Este conceito é fundamental ao pensamento em enfermagem na medida em que faz apelo a um trabalho de reconhecimento dos sujeitos enquanto seres transhistoricos, transnacionais e transculturais que é incompatível com a sua redução a uma qualquer definição que o encerre em estruturas formais. Este assumir da complexidade, dos diferentes níveis de realidade e a lógica do terceiro incluído configuram a investigação transdisciplinar.

A complexidade dos problemas de saúde exige a concorrência de diversos saberes para a sua compreensão. A abordagem transdisciplinaridade constitui-se assim como um poderoso contributo para aumentar a inteligibilidade dos processos de saúde doença aliando a ética, o diálogo, o rigor, a abertura, e a tolerância.

A transdisciplinaridade não se opõe à disciplinaridade, pelo contrário ela precisa das disciplinas para se desenvolver. Ela faz emergir da confrontação entre as disciplinas novos dados que as articulam entre si e que nos dão uma nova visão da natureza e da realidade. (Nicolescu B. 2010)

A noção de transdisciplinaridade tem vindo a ganhar expressão no seio das ciências, mas longe de reunir consenso, este conceito continua em debate no seio da comunidade científica. Nicolescu (2010) entende que a transdisciplinaridade diz respeito aquilo que está ao mesmo tempo, entre as disciplinas, as atravessa e se situa para além de todas elas, tendo em vista a unidade do conhecimento fragmentado nas diferentes disciplinas. A transdisciplinaridade visa a compreensão do mundo atual, e tem como um dos seus imperativos a unidade do conhecimento. Nicolescu (2010) esclarece que a função da transdisciplinaridade na sociedade contemporânea é a de unificar os conhecimentos oriundos das mais variadas áreas.

Na Carta de Transdisciplinaridade subscrita entre outros por Edgar Morin, Basarab Nicolescu e Lima de Freitas. (I Congresso Mundial de Transdisciplinaridade em 1994 - Convento da Arrábida Portugal), podemos ler nos seus dois últimos artigos:

“Artigo 13:

A ética transdisciplinar recusa toda atitude que recusa o diálogo e a discussão, seja qual for sua origem - de ordem ideológica, científica, religiosa, económica, política ou filosófica. O saber compartilhado deverá conduzir a uma compreensão compartilhada baseada no respeito absoluto das diferenças entre os seres, unidos pela vida comum sobre uma única e mesma Terra.

Artigo 14:

Rigor, abertura e tolerância são características fundamentais da atitude e da visão transdisciplinar. O rigor na argumentação, que leva em conta todos os dados, é a barreira às possíveis distorções. A abertura comporta a aceitação do desconhecido, do inesperado e do imprevisível. A tolerância é o reconhecimento do direito às ideias e verdades contrárias às nossas.”

Numa época onde se valoriza sobretudo estudos sobre a efectividade dos cuidados de enfermagem importa, sem menosprezar a sua relevância investir na criação de uma cultura de cuidados que coloque a pessoa no centro desse cuidado no respeito pela sua singularidade. O apelo de Edgar Morin para que se invista no desenvolvimento de uma ciência com consciência é sem dúvida um contributo significativo para projectar uma enfermagem que aprofunde a sua humanitude.

Neste número publicamos um conjunto de artigos diversos que incluem diferentes abordagens metodológicas e diferentes perspectivas. Um primeiro artigo que dando azo à imaginação traça cenários futuros plausíveis que permitem antecipar novas formas de projectar os cuidados. Incluímos ainda duas revisões sistemáticas da literatura e damos continuidade à publicação de artigos que resultam de comunicações realizadas no 1º Encontro de História de Enfermagem.

Luísa D’Espiney



Artigos
Pensar Enfermagem número 18_Semestre 1, *
Capa


D’Espiney, Luísa
Editorial


Teixeira de Almeida Vieira Monteiro, Ana Paula
O Futuro já começou: Cyborgs, Biotecnologias e Ciências de Enfermagem


Garcia Teles Nunes, Elisabete Maria ; Mendes Gaspar, Maria Filomena
Modelo de Comportamento Organizacional de Meyer e Allen: Estudo com os Enfermeiros


Lopes de Sousa, Pedro Miguel
Efetividade dos Programas de Intervenção de e-Saúde em Adolescentes Obesos: Revisão Sistemática da Literatura


Barros Pires, Ana Maria
“CHAMEM O JOSÉ BERNARDO!” Uma evocação histórica em cinco atos


Pina Queirós, Paulo Joaquim
Enfermeiros e Auxiliares Portugueses Assalariados em S. Jorge da Mina Afonso Freyre, Enfermeyro; Inês, Fernanda, Beatriz e Catarina, pera Servirem na Enfermaria.


Ramos Ferreira, Óscar Manuel
Enfermagem Religiosa no Portugal do Século XX (1901-1950): Detratores e Apologistas, dois Extremos em Confronto


Bernardo Garcia, Elisa Maria; Amendoeira, José
O Curso de Visitadoras Sanitárias em Portugal 1929-1952