REVISTA
 

 
 
Editorial
Número: 2, Volume: 18
2º Semestre de 2014

Os meio na construção do conhecimento: sobre ética e rigor em investigação científica

A Revista Pensar Enfermagem é uma publicação periódica de natureza científica. Como tal, tem vindo a pugnar, progressivamente, pela qualidade do material publicado. Tanto os revisores quanto o próprio conselho editorial têm pautado a sua ação e decisão por critérios de boa prática científica, independentemente do paradigma em que a mesma se enquadre.

Mesmo sabendo que um artigo científico é sempre e necessariamente uma versão reduzida do trabalho realizado, é indispensável que seja uma amostra fiel do melhor espirito da pesquisa, não podendo ser, sobretudo, uma versão redutora do mesmo. Digo isto para introduzir na reflexão dois tópicos centrais em investigação e divulgação: A salvaguarda de direitos dos participantes empíricos humanos e a questão do rigor metodológico do estudo. Estes são aspectos que para além de serem respeitados – e por isso, planeados e construídos no percurso da investigação –, carecem de explicitação em sede de divulgação científica, enquanto ato de assunção de responsabilidade e transparência do investigador sobre as dimensões ética e de rigor do estudo que assina. A propósito, não direi que estas não são preocupações de alguns dos autores que vêem os seus artigos propostos para reformulação ou, em última instância, rejeitados por falta daqueles elementos, após arbitragem científica e avaliação editorial; digo antes que os mesmos, por vezes, não estão ou não conseguem ser enunciados de modo satisfatório, perante os pares.

De acordo com Leino-Kilpi (2005 citada por Oliveira, 2011) desde a selecção do problema para estudo até à publicação de resultados, todas as etapas do processo de investigação devem salvaguardar os requisitos éticos relativos à protecção e respeito pelos direitos das pessoas participantes, configurando isto um dever ético do investigador. Assim, pugnar por respeitar os princípios éticos e regras morais consequentes e, deste modo, os direitos dos participantes empíricos, vai, necessariamente, além da menção ao pedido de autorização organizacional para colher dados, ou da afirmação da obtenção de consentimento informado, para mais quando os participantes são pessoas com acrescida vulnerabilidade (Gilhooly, 2002; Holzemer, 2010) ou em condição de inelutável susceptibilidade ou dependência e portanto, passiveis de se sentirem compelidos a participar (Gilhooly, 2002). Deste modo, torna-se necessário evidenciar as nuanças que, em cada projecto, permitiram lidar com a idiossincrasia do grupo de sujeitos empíricos, em função das opções metodológicas realizadas.

Se em pesquisa sob paradigma pós-positivista é mais inteligível abordar a questão da validade e fidedignidade, salvaguardadas as questões de representatividade amostral, de validade e fidedignidade dos instrumentos, da adequação metodológica e robustez analítica, em pesquisa interpretativista (Willis, 2007) a questão da construção do rigor fica mais fluida, já para não dizer, menos consensual. Contudo, concordo com Morse &Richards (2002) quando sublinham a relevância deste tópico para a afirmação de uma perspectiva epistemológica, de modos de produção de conhecimento genericamente designados por investigação qualitativa.

Lembro, a título de exemplo, as orientações de Morse & Richards (2002) para incrementar o rigor em projectos de investigação qualitativa, bem como aquilo que Morse e colaboradores designam de procedimentos de construção de validade, os quais permitem ao investigador avaliar reflexivamente e assegurar o rigor do percurso de investigação, ao introduzir-lhe as necessárias correcções, com recurso à (i) sensibilidade do investigador e a (ii) estratégias de verificação (Morse et al., 2002). Em suma, trata-se de, desde o desenho do projeto à divulgação do estudo, esboçar, seguir e narrar uma trajectória que assegure ao leitor/consumidor a intenção e o esforço realizado para manter padrões da melhor prática cientifica e confira segurança nos achados produzidos. Por tudo isto, acredito que a busca de rigor constitui uma responsabilidade do investigador (Botelho, 2009; Morse et al., 2002) e um dever ético deste.

Desejando para a Pensar Enfermagem um futuro auspicioso – em época de grande exigência, elevada competitividade e acentuada atenção à efectividade dos cuidados (D’Espiney, 2014) –, diria que os aspetos agora equacionados não são os únicos a valorizar num artigo científico, mas serão, por certo, elementos relevantes para revisores e editores atentos às subtilezas dos meios, para além da importância dos fins prosseguidos, atentos ao desenvolvimento de uma ciência com consciência (Edgar Morin citado por D’Espiney, 2014, p. 2).

Célia Simão de Oliveira

Referências

Botelho, M.A. (2009). Editorial. Pensar Enfermagem, Vol. 13. Nº 2 (2º semestre 2009), p.1.

D’Espiney, L. (2014). Editorial. Pensar Enfermagem, Vol. 18. Nº 1 (1º semestre 2014), p.1-2.

Gilhooly, M. (2002). Ethical issues in researching later life. In A. Jamieson & C. R. Victor (Eds.), Researching ageing and later life (pp. 211-225). Philadelphia: Open University Press.

Grbich, C. (1999). Qualitative research in health. An introduction. London: Sage Pub.

Holzemer, W. L. (2010). Responsible conduct of research. In W.L. Holzemer (Ed.) Improving health through nursing research (pp. 167-179). International Council of Nurses: Wilwy-Blackwell.

Morse, J. M., Barret, M., Mayan, M. M., Olson, K., & Spiers, J. (2002). Verification strategies for establishing reliability and validity in qualitative research. International Journal of Qualitative Methods, 1 (2), Article 2. Disponível em http://www.ualberta.ca/~ijqm/

Morse, J. M., & Richards, L. (2002). Readme first for a user’ guide to qualitative methods. Thousand Oaks: SAGE Pub.

Oliveira, C. S. (2011). O cuidado confortador da pessoa idosa hospitalizada: Individualizar a intervenção conciliando tensões. Tese de doutoramento à Universidade de Lisboa. Disponível em http://hdl.handle.net/10451/3815

Willis, J. W. (2007). Foundations of qualitative research. Interpretative and critical approaches. Thousand Oaks: SAGE Publications.



Artigos
Pensar Enfermagem Volume 18 Semestre 2, *
Capa


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Editorial


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