REVISTA
 

 
 
Editorial
Número: 2, Volume: 21
2º Semestre de 2017

Humanização, bem-estar e saúde três ideias que desde sempre se entrelaçaram na enfermagem e que conferem sentido ao agir profissional. Florence Nightingale afirmou que lutar pela proteção da dignidade humana e por cuidados decentes é um dever que se impõe aos enfermeiros. Com efeito, a enfermagem é um serviço orientado por uma motivação moral para agir em função do bem de outrem.

Humanismo e humanização, não se constituindo como preocupações recentes ganham na actualidade com a expansão crescente do desenvolvimento tecnológico uma relevância redobrada. O desenvolvimento tecnológico constitui-se como um poderosíssimo meio de intervir com sucesso nos mais variados contextos de doença podendo pela exuberância dos seus efeitos transformar-se num fim que o profissional persegue, ofuscando o bem-estar de quem deve permanecer o sujeito dos cuidados.

A humanização dos cuidados tornou-se um tema recorrente de modo a realçar a finalidade do agir em enfermagem. O cuidado só se realiza no quadro de um relacionamento com outro que revela uma preocupação com o seu bem-estar. Não existe cuidado que não seja humanizado ou então deixa de ser cuidado. O conceito de Humanidade no relacionamento comporta um sentido de dever que nos compromete no agir de forma a valorizarmos a pessoa e o seu bem-estar e, por isso, é preciso recuperar o poder humanizador da presença do enfermeiro

Três dos artigos publicados neste número remetem para esta preocupação de atenção e cuidado com o alvo dos nossos cuidados centrados na humanização no bem-estar e no crescimento/desenvolvimento saudável. Outro centra-se também no bem-estar mas dos profissionais, no caso, os enfermeiros uma vez que se considera esta dimensão como determinante para o bom funcionamento das organizações.

No que se refere às parturientes no momento do parto as múltiplas possibilidades de oferecer cuidado às mulheres neste momento tão relevante das suas vidas impõe que se equacione a diversidade de possibilidades na individualização dos cuidados como forma de garantir que este momento é vivido de forma tão positiva quanto um parto normal permite. Assim, no artigo “A pesquisa convergente assistencial como estímulo para a consolidação da humanização da assistência de enfermagem ao parto” encontramos espelhada esta preocupação. Através de um estudo qualitativo cuja colheita de dados foi obtida por meio da utilização do tripé da PCA (Grupo de convergência; Entrevista Conversação e Observação Participante).

No artigo “Qualidade e estilo de vida da pessoa hipertensa” a atenção é dirigida igualmente para a qualidade de vida da pessoa que com um problema cronico precisa repensar o seu estar na vida para que cuidando do seu problema se possa manter o máximo bem-estar. Assim com o objectivo de “caracterizar o perfil da população hipertensa” e compreender a sua influência no bem-estar desta população realizou-se um estudo quantitativo, descritivo, analítico, de corte transversal, com uma amostra de 105 utentes tendo-se recorrido ao Mini Questionário da Qualidade de Vida (MINICHAL) e Estilo de Vida Fantástico (EVF).

Por fim apresentamos duas “scoping review”. Uma que se debruça sobre a satisfação profissional dos enfermeiros que considera constituir uma dimensão que influencia o comportamento organizacional e como tal também a qualidade dos cuidados. O bem estar dos cuidadores constitui-se como uma condição para reforçar a humanização dos cuidados.

A segunda “scoping review” visa mapear o conhecimento existente sobre o processo de desenvolvimento da autogestão em adolescentes com Diabetes identificando os contextos em que se desenvolvem estas competências, as opiniões e experiências dos adolescentes, dos pais e dos profissionais de saúde, e ainda identificar as práticas e intervenções que são utilizadas.

Pois é necessário estar atento porque a palavra humanização arrasta consigo uma outra: Desumanização. Com efeito, a batalha das fronteiras humanização/desumanização realiza-se através do mecanismo de sensibilidade/insensibilidade perante o sofrimento humano. Como escreveu Judith Butler, na sua obra Precarious Life: The Powers of Mourning and Violence, 2006, “ Os que ganham representação, especialmente auto-representação têm mais chance de ser humanizados”

Referências

Butler, Judith. (2001). Precarious Life: The Powers of Mourning and Violence. London New York. Verso



Artigos
Rebelo Botelho, Maria Antónia
Editorial


Corrêa, Aurea
A Pesquisa Convergente Assistencial como Estímulo para a Consolidação da Humanização da Assistência de Enfermagem ao Parto


Cunha, Lara
Qualidade e Estilo de Vida da Pessoa Hipertensa


Silva, Cláudia
Satisfação Profissional dos Enfermeiros: Uma Revisão Scoping