REVISTA
 

 
 
Editorial
Número: 1, Volume: 24
1º Semestre de 2020

Pensar a Esperança

Há uma longa tradição de usar o mito do jarro de Pandora (ou da caixa, consoante as interpretações) para refletir sobre a natureza enigmática do conceito esperança. A versão mais influente do mito é a de Hesíodo em Trabalhos e Dias (Geoghegan, 2008). Os deuses e os homens (não existiam ainda mulheres humanas) encontram-se para discutirem as relações apropriadas entre os dois grupos. Prometeu, rouba o fogo de Zeus e dá-o aos homens. Em retaliação Zeus decide punir os homens enviando-lhes Pandora (que significa todos os dons) a primeira mulher humana. A acompanhar Pandora - na versão de Hesíodo – vai um jarro que ela abre, permitindo que todas as calamidades do mundo saiam, ficando apenas no jarro a esperança. De acordo com Hesíodo, Zeus tencionava que Pandora e o seu jarro fossem uma grande calamidade para a humanidade, contudo não é dita a natureza e extensão deste castigo e principalmente o papel da esperança nesta provação (Geoghegan, 2008). Uma das possibilidades é a de que a esperança faz parte do castigo. Zeus, nesta leitura, sabendo a propensão dos homens para desejar, “permitiu à humanidade manter esta enervante presença no jarro, levando-a a pensar que as coisas podem melhorar, para ser sempre amargamente desapontada” (Geoghegan, 2008, p.27). Tal é a interpretação do mito feita por Nietzsche (1997) na sua obra Humano, demasiado humano, não tendo duvidas das intenções malignas de Zeus e do efeito corrosivo do “dom” da esperança; a esperança não é o único bem entre os males mas sim o pior dos males que prolonga o tormento humano. Contudo uma interpretação predominante é a de que a presença da esperança no jarro foi uma expressão da misericórdia de Zeus. Queria punir a humanidade mas não destrui-la e assim deu-lhe os recursos da esperança para a ajudar a sobreviver na adversidade. Manter a esperança fechada, não para a aprisionar mas para a proteger, mantendo-a em segurança e perto, como recurso humano perene (Geoghegan, 2008). Fica assim colocada a ambiguidade da esperança.

A própria palavra esperança tem múltiplos usos, na medida em que pode ser usada como nome (há esperança), verbo (eu espero) ou adjetivo (estou esperançada(o)). Uma das características da esperança é a de que tem que ter um objeto. Há uma esperança por ou de algo acontecer. Este objeto pode ser uma coisa concreta ou algo menos tangível como um estado de ser. Em qualquer das formas a esperança tem um objeto de desejo.

A Esperança é um conceito “fronteira” (Barnard,1995) não sendo pertença exclusiva de uma única disciplina; tem sido um tópico de investigação para alguns filósofos e teólogos, para quem ela é essencial à vida, individual ou coletiva (ex. Marcel,1998; Bloch, 1995). No âmbito da literatura psicológica sobre a esperança duas perspetivas gerais podem ser encontradas: a dinâmica e a cognitivo-comportamental.

Em enfermagem uma das primeiras referências à esperança é feita por Madeline Vaillot que considerou a esperança como essencial à vida, presente nos laços entre indivíduos e influenciada pelas ações de outros (Vaillot,1970) temas já presentes no trabalho de Gabriel Marcel. Novo, na sua reflexão sobre a esperança, foi considerar inspirar esperança como uma atividade específica dos enfermeiros (Elliot, 2005). A investigação sobre a esperança, em enfermagem, começou a ser vista como uma prioridade. Vários estudos foram desenvolvidos para descrever o fenómeno da esperança e identificar os seus fatores constitutivos. Desses estudos decorrem modelos teóricos que concebem a esperança como experiência multidimensional envolvendo relações interpessoais, um foco no futuro e realização de objetivos, sendo exemplos os de Dufault e Martocchio (1985) e Farran, Herth & Popovich (1995). Nos estudos de revisão sobre a esperança de Duggleby et al. (2010), Kylmä and Vehviläinen-Julkunen (1997) e Wayland et al. (2016) esta é concebida como um construto multidimensional que pode mudar ao longo do tempo.

A esperança pode ser concebida de modo diferente em vários contextos como os dos cuidados de saúde. Olsman (2020), numa síntese de estudos de revisão sobre a esperança nos cuidados de saúde, sugere que

“a esperança é conceptualizada como 1) uma expectativa: apreciação de um resultado futuro, 2) resiliência: resistência á adversidade e 3) um desejo: expressão de significado. Relações inspiradoras, em particular relações com pares, aumenta a esperança nos doentes. Perdas, por outro lado, como a perda de saúde, relações ou salário, têm um impacto negativo na esperança. Os resultados também sugerem que uma questão ética central é a tensão entre esperança e verdade nos cuidados paliativos” (p.202).

O mesmo autor refere que um debate em aberto na investigação sobre a esperança é de que modo os objetos de esperança – nos casos em que a esperança tem um – dão cor à (conceptualização da) esperança. Também, a ética da esperança necessita ser desenvolvida em outros contextos que não só o dos cuidados paliativos e deve ser compreendida em termos mais amplos do que o dualismo entre esperança e verdade. Uma outra conclusão é a de que futuros estudos de síntese devem examinar a esperança dos profissionais de saúde (Olsman, 2020).

Para finalizar, a minha esperança é que a leitura deste texto possa inspirar a pensar a esperança no cuidado de enfermagem e… na Pensar Enfermagem.

Maria Teresa Magão

Barnard, D. (1995). Chronic illness and the dynamics of hoping. In S. Toombs, D. Barnard & R.

Carson (Eds) Chronic illness: from experience to policy (pp.38-57). Bloomington: Indiana

University Press.

Bloch, E. (1995). The principle of hope. Volume I. Cambridge: MIT Press.

Dufault, K. & Martocchio, B. C. (1985). Hope: its spheres and dimensions. Nursing Clinics of

North America, 20 (2), 379-391.

Duggleby W., Kylma J., Holtslander L., Duncan V., Hammond C. & Williams A. (2010).

Metasynthesis of the hope experience of family caregivers of persons with enduring.

Qualitative Health Research, 20(2), 148–158.

Elliot, J. A. (2005). What have we done with hope? A brief history. In J. A. Elliot (Ed)

Interdisciplinary perspectives on Hope (pp.3–46). Hauppauge: Nova Science.

Farran, C. J., Herth, K. A. & Popovich, J. M. (1995). Hope and hopelessness. Critical clinical

constructs. Thousand Oaks: Sage Publications.

Geoghegan, V. (2008). Pandora’s box: Reflections on a myth. Critical Horizons: A Journal of

Philosophy and Social Theory, 9(1), 24-41.

Kylmä, J. & Vehvilainen-Julkunen, K. (1997). Hope in nursing research: A meta-analysis of the

ontological and epistemological foundations of research on hope. Journal of Advanced

Nursing, 25(2), 364-371.

Marcel, G. (1998). Homo Viator. Paris: Association Présence de Gabriel Marcel.

Nietzsche, F. (1997). Humano demasiado humano. Lisboa: Relógio D’Água.

Olsman, E. (2020). Hope in health care: A synthesis of review studies. In S. C. van den Heuvel

(Ed) Historical and multidisciplinary perspectives on hope (pp.197-214). Cham: Springer.

Vaillot, M. C. (1970). Living and dying: Part I. Hope, the restoration of being. American Journal

of Nursing, 70 (2), 268-272.

Wayland, S., Maple, M., McKay, K. & Glassock, G. (2016). Holding on to hope: A review of the

literature exploring missing persons, hope and ambiguous loss. Death Studies, 40 (1), 54–60.



Artigos
Magão, Maria Teresa
Editorial


Martinho, Liliana; Diogo, Paula
Gestão recíproca das emoções e da informação no cuidado à criança e família: proposta de um algoritmo de atuação em enfermagem


Relvas Pacheco Calado de Sousa, Fátima Maria ; Santos Curado, Maria Alice
Fatores preditores do stress parental nas unidades de neonatologia Estudo de pré-validação da escala de avaliação do stress parental na unidade de neonatologia


Salgado Martins, Claudina Isabel ; Ferreira dos Santos Potra, Teresa Maria; Bernardes Lucas, Pedro
Fatores de motivação dos enfermeiros em Cuidados de Saúde Primários


Fonseca Rosa, Maria da Luz ; Diogo, Paula ; Barros, Luísa
O processo emocional experienciado pelos enfermeiros na interação com os pais maltratantes na consulta de saúde infantil