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Pensar Enfermagem / v.28 n.01 / maio 2024
DOI: 10.56732/pensarenf.v28i1.309
Artigo Original Quantitativo
Como citar este artigo: da Costa JR, Silva MMO, Neto JC, Lopes MSV, Albuquerque GA. Perfil da
violência perpetrada por adolescentes. Pensar Enf [Internet]. 2024 Mai; 28(1): 48-54.
Available from: https://doi.org/10.56732/pensarenf.v28i1.309
Perfil da violência perpetrada por adolescentes
Profile of violence perpetrated by adolescents
Resumo
Introdução
A violência é um problema social de âmbito domiciliário ou comunitário, atinge crianças e
adolescentes nas formas física, psicológica, sexual, negligência e exploração comercial
ligado a relações de poder.
Objetivo
Descrever o perfil da violência perpetrada por adolescentes.
Método
Estudo transversal, quantitativo, desenvolvido no período de abril a junho de 2019, com
155 adolescentes. A recolha ocorreu por meio de questionários e a análise dos dados através
no programa BioEstat 5.3. Pesquisa aprovada sob parecer nº 3.203.080.
Resultados
Em sua maioria os participantes eram do sexo feminino com idade entre 14 a 18 anos,
heterossexuais, solteiros, católicos e estudavam pela manhã. Quanto aos agressores
destacam-se meninas 51 (57,9%) perpetrando a violência física 34 (65,4%). Houve
associação significativa (p<0.0001) entre as variáveis: violência psicológica/física e idade da
vítima entre 10 a 19 anos; violência psicológica/física e ambiente escolar.
Conclusão
A violência está presente no cotidiano dos adolescentes, o que eleva a importância de ações
preventivas nos espaços sociais, além da observação de fatores de riscos para seu devido
enfrentamento.
Palavras-chave
Saúde do Adolescente; Comportamento do Adolescente; Violência; Exposição à
Violência.
Abstract
Introduction
Violence is a social problem at home or in the community, affecting children and
adolescents in physical, psychological, sexual, neglect and commercial exploitation linked
to power relations.
Objective
To describe the profile of violence perpetrated by adolescents.
Method
Cross-sectional, quantitative study carried out between April and June 2019 with 155
adolescents. Data was collected using questionnaires and analyzed using the BioEstat 5.3
program. The study was approved under protocol number 3.203.080.
Results
Most of the participants were female, aged between 14 and 18, heterosexual, single, Catholic
and studying in the morning. The aggressors were girls, 51 (57.9%), and physical violence,
34 (65.4%). There was a significant association (p<0.0001) between the following variables:
José Ronildo da Costa1
orcid.org/0000-0002-2730-6320
Mauro Mccarthy de Oliveira Silva2
orcid.org/0000-0001-8895-7760
João Cruz Neto3
orcid.org/0000-0002-0972-2988
Maria do Socorro Vieira Lopes4
orcid.org/0000-0003-1335-5487
Grayce Alencar Albuquerque5
orcid.org/0000-0002-8726-0619
1 Mestre em Saúde da Família. Universidade Regional
do Cariri, Crato, Ceará, Brasil.
2 Mestre em Enfermagem. Universidade Regional do
Cariri, Crato, Ceará, Brasil.
3 Doutorando. Mestre em Enfermagem. Universidade
Federal do Ceará, Fortaleza, Ceará, Brasil.
4 Doutora em Enfermagem. Universidade Regional do
Cariri, Crato, Ceará, Brasil.
5 Doutora em Ciências da Saúde. Universidade
Regional do Cariri, Crato, Ceará, Brasil.
Autor de correspondência:
João Cruz Neto
E-mail: enfjcncruz@gmail.com
Recebido: 06.01.2024
Aceite: 17.04.2024
Pensar Enfermagem / v.28 n.01 / maio 2024 | 49
DOI: 10.56732/pensarenf.v28i1.309
Artigo Original Quantitativo
psychological/physical violence and the victim's age
between 10 and 19; psychological/physical violence and the
school environment.
Conclusion
Violence is present in the daily lives of adolescents, which
raises the importance of preventive actions in social spaces,
as well as observing risk factors in order to deal with it.
Keywords
Adolescent Health; Adolescent Behavior; Violence; Exposure to
Violence.
Introdução
No mundo, aproximadamente 2,5% da mortalidade é
resultante da violência, e milhares de pessoas são vítimas de
violências não fatais por dia.1-2 Esse dano é responsável por
mais de um milhão de mortes por ano em nível mundial,
sendo a quarta causa de mortalidade na população de 15 a
44 anos de idade.3 No Brasil, crianças e adolescentes são
consideradas as principais vítimas.4 De acordo com a
Organização Mundial da Saúde (OMS), a violência contra
crianças e adolescentes inclui a violência física, psicológica,
sexual, negligência e a exploração comercial, geralmente em
um contexto de responsabilidade, confiança e/ou poder. O
principal local de ocorrência da violência contra essa
população é o espaço do lar e com autoria dos familiares.5
A violência contra esse público é um problema crescente e
devido sua amplitude e disseminação nos últimos anos,
vem adquirindo maior visibilidade, passando a ser discutida
e estudada por diferentes setores da sociedade, de maneira
a compreender e identificar os fatores que a determinam6 e
as condições que situam o adolescente em três diferentes
posições em relação a violência, o autor, a vítima ou a
testemunha, todavia, uma parcela significativa apresenta-se
na primeira posição.7
A violência perpetrada por adolescentes é considerada um
fenômeno social atual diretamente ligada às desigualdades
sociais, com aspectos culturais e relacionais. Estudo
realizado com 239 estudantes em Salvador, Bahia, apontou
que 60% foram vítimas de violência doméstica, e em
decorrência da vitimização, os adolescentes apresentaram
comportamentos agressivos, prática de atos violentos,
consumo de álcool e substâncias ilícitas.8
Em países latino-americanos, a perpetração da violência
entre homens de 13 a 24 anos chega a 23%, sendo associada
a violência física e emocional por cuidadores.9 No ambiente
intrafamiliar, 12% da violência física prática é perpetrada
por adolescentes e cerca de 16% estão na condição tanto
de vítimas como de agressores, um comportamento que se
reproduz cotidianamente motivado pelo uso de drogas
lícitas ou ilícitas, especialmente a partir dos 16 anos de
idade, quando iniciam a vida de festas.10
Assim, a vivência de episódios violentos no âmbito familiar
influencia diretamente adolescentes a perpetrarem esse
comportamento em diversos ciclos sociais de seu convívio,
como a escola, considerando-a um ato na maioria das vezes
normal e aceito, ao fazerem uso da violência como
ferramenta errônea para resolução de conflitos, ato coercivo
ou opressão.11 Diante do exposto, este estudo objetivou
descrever o perfil da violência perpetrada por adolescentes.
Métodos
Trata-se de um estudo transversal quantitativo,
desenvolvido no período de abril a junho de 2019, em uma
escola pública da rede estadual de ensino médio localizada
no município de Picos, estado do Piauí, Brasil.
À época da recolha, estavam matriculados 477 alunos/as
de forma regular, distribuídos no ensino fundamental e
médio, nos período matutino e noturno, dos quais 254
cursavam apenas o ensino médio. Foi utilizado o cálculo
amostral por meio da fórmula da população finita para
definir a amostra do estudo, apresentando margem de erro
de 5%, nível de confiança 95% e estimativa de prevalência
de 50%, o que culminou em uma amostra para o estudo de
155 adolescentes.
O critério de inclusão adotado para participação dos/as
adolescentes foi pertencerem à faixa etária entre 12 a 18
anos, levando-se em consideração a definição de
adolescência do Estatuto da Criança e Adolescente (ECA).
Adotou-se como critério de exclusão a ausência dos/as
adolescentes na escola nos dias da realização da recolha de
dados.
Após a autorização para desenvolvimento da pesquisa pela
direção da escola, foi solicitado a relação nominal dos/as
adolescentes matriculados, definindo-se as turmas e os
período da aplicação do estudo, seguindo-se os critérios
pré-estabelecidos pela pesquisa. Para a permissão da
entrada do pesquisador em sala de aula, foi realizada
reunião prévia com o corpo docente da instituição, onde
ocorreu a apresentação do projeto e agendamento das datas
para recolha de dados.
Na fase de apresentação dos objetivos da pesquisa os
estudantes que concordaram assinaram o Termo de
Assentimento Livre e Esclarecido e seus responsáveis o
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido obtendo
permissão para realizar a pesquisa. Por fim, procedeu-se a
aplicação dos questionários em dias e horários agendados.
O questionário foi elaborado pelos próprios autores e
continham questões acerca das condições de vida dos/as
adolescentes e da violência perpetrada por eles/as. O
referido instrumento de recolha de dados quantitativo foi
dividido em quatro blocos, a saber: i) dados
socioeconômicos (continham questões inerentes à idade,
escolaridade, renda familiar, número de membros da
família, cor/etnia, orientação sexual, religião, estado civil)
ii) violência física, iii) violência psicológica e iv) violência
sexual. Destaca-se que nos blocos acerca das violências, as
questões se relacionavam à perpetração dessas violências
relacionadas ao sexo e idade da vítima, local de ocorrência
e frequência de consumo de bebidas alcoólicas pelos/as
adolescentes.
Os dados quantitativos obtidos foram organizados no
Microsoft Office Excel versão 2010 e posteriormente
analisados com o auxílio do programa BioEstat 5.3, que
permitiu a descrição das frequências absolutas e relativas
das variáveis do estudo, bem como, a análise de associação
50 | Neto, J.
Artigo Original Quantitativo
entre as variáveis preditoras e de desfecho. A
independência entre essas variáveis foi determinada através
do teste de hipótese G com Correção de Williams ao nível
de 0,05 de significância. Trata-se de um teste não
paramétrico, semelhante ao Qui-Quadrado, aplicado em
substituição a este quando ele não apresenta as condições
necessárias à sua aplicação. Já a Correção de Williams busca
obter melhor aproximação com o teste do Qui-Quadrado.
O estudo foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa
(CEP) da Universidade Regional do Cariri (URCA) com
parecer aprovado 3.203.080. Os questionários foram.
numerados de 1 a 155, de acordo com a ordem de
recebimento, garantindo-se a confidencialidade das
informações prestadas.
Resultados
Participaram do estudo 155 adolescentes. Destes, 94
(63,9%) eram do sexo feminino e 61 (36,1%) do sexo
masculino, com faixa etária entre 14 a 18 anos, destacando-
se aqueles com 16 anos (N = 43; 27,7%).
Estavam matriculados em período matutino 132 (85,2%),
86 (55,5%) eram pardos, 143 (92,2%) heterossexuais, 116
(74,8%) com residência própria, 96 (61,9%) solteiros/as,
124 (80%) católicos/as, com renda familiar dia de um
salário mínimo 88 (56,8%) e com até dois a quatros irmãos
98 (63,2%). Quanto à violência perpetrada, 88 (56,7%)
revelaram ter praticado violência alguma vez. O sexo
masculino foi o maior perpetrador de violência psicológica
19 (54,3%) e o sexo feminino de violência física 34 (65,4%).
Identificou-se associação entre as variáveis praticar
violência psicológica e física com o sexo da vítima (p
<0.0001), em que se destaca o sexo masculino e a violência
física, conforme tabela 01.
Houve relação entre a violência praticada (agressor) e idade
das vítimas (p< 0.0001), em que prevaleceram vítimas na
faixa etária de 10 a 19 anos, tanto para violência psicológica,
como para violência física, tabela 02.
Quanto ao local de ocorrência, observa-se associação entre
as violências físicas e psicológicas em ambiente escolar
(p<0.0001), conforme tabela 03
Quanto a relação entre praticar violência e consumo de
álcool, tabela 4. o associação significativa entre as
variáveis, contudo, quando violência seja física ou
psicológica, estima-se que aconteça caso haja o consumo de
álcool uma vez na semana.
Tabela 1: Associação entre violência praticada e sexo da vítima, Picos PI, Brasil, 2019.
Tipos de violência
Não informado
Ambos os sexos
p-value
N
%
N
%
N
%
N
%
Violência
psicológica
Não respondeu
12
100
--
--
--
--
--
--
< 0.0001
Praticou
08
22,9
14
40
10
28,6
03
8,6
Não praticou
105
97,2
02
1,8
01
0,9
0
--
Violência física
Não respondeu
09
100
--
--
--
--
--
--
< 0.0001
Praticou
05
9,6
25
48
16
30,8
06
11,5
Não praticou
88
93,6
02
2,1
04
4,3
--
--
Violência sexual
Não respondeu
21
100
--
--
--
--
--
--
0.8280
Praticou
--
--
01
100
--
--
--
--
Não praticou
128
96,2
03
2,3
02
1,5
--
--
Tabela 2: Associação entre violência praticada e idade da vítima, Picos PI, Brasil, 2019.
Tipo de violência
Não informado
1 a 5 anos
6 a 10 anos
10 a 19 anos
p-value
N
%
N
%
N
%
N
%
Violência psicológica
Não Respondeu
12
100
--
--
--
--
--
--
< 0.0001
Praticou
01
2,9
--
--
--
--
30
85,7
Não praticou
104
96,3
--
--
--
--
02
1,8
Violência física
Não Respondeu
09
100
--
--
--
--
--
--
< 0.0001
Praticou
01
1,9
01
1,9
02
3,8
42
80,8
Não praticou
89
94,7
--
--
--
--
01
1,0
Violência sexual
Não respondeu
21
100
--
--
--
--
--
--
0.9992
Praticou
--
--
--
--
--
--
--
--
Não praticou
129
96,7
01
0,7
--
--
--
--
Pensar Enfermagem / v.28 n.01 / maio 2024 | 51
DOI: 10.56732/pensarenf.v28i1.309
Artigo Original Quantitativo
Discussão
A literatura evidencia que o envolvimento de adolescentes
em atos de violência no papel de agressores relaciona-se à
fatores que são capazes de interferir diretamente na
formação social e moral nesta faixa etária, como violência
no ambiente doméstico, exploração de menores, convívio
e exposição ao álcool, drogas, tráficos, roubos e outros
eventos que possam exercer influência negativa sobre os
mesmos.12
Os dados obtidos nesta pesquisa reforçam a problemática
da figura adolescente como perpetrador de violência, uma
vez que mais da metade afirmou ter praticado violência
ao menos uma vez na vida. Em estudo13 com 2.786
adolescentes de 17 escolas da rede pública estadual da
capital do estado do Mato Grosso, Brasil, apontou que
1.236 participantes (44,36%), afirmaram terem sido
expostos a violência nas condições de vítima, agressor e
vítima e agressor simultaneamente.
Autores14 afirmam que tanto as violências sofridas quanto
as praticadas por adolescentes interferem de maneira
significativa na qualidade de vida dos mesmos, tendo em
vista que afetam familiares, amigos e comunidade, o que
pode provocar baixo desempenho educacional,
comportamentos de risco em saúde, incapacidades,
doenças e até mortes.
Tabela 3: Associação entre violência praticada e local da ocorrência, Picos PI, Brasil, 2019.
Tipo de violência
Sem
informação
Residência
Local
Público
Escola
Residência
e
Escola
Residência
e local
Público
Residência
e local
público
e escola
Local
público
+
escola
p-value
N
%
N
%
N
%
N
%
N
%
N
%
N
%
N
%
Violência
psicológica
Não
respondeu
12
100
--
--
--
--
--
--
--
--
--
--
--
--
--
--
< 0.0001
Praticou
--
--
07
20,0
05
14,3
16
45,7
01
2,9
--
--
02
5,7
02
5,7
Não
praticou
104
96,3
--
--
01
0,9
01
0,9
--
--
--
--
01
0,9
--
--
Violência
física
Não
respondeu
09
100
--
--
--
--
--
--
--
--
--
--
--
--
--
0.0
< 0.0001
Praticou
2
3,8
14
26,9
08
15,4
15
28,8
08
15,4
01
1,9
01
1,9
02
3,8
Não
praticou
92
97,9
--
--
02
2,1
--
--
--
--
--
--
--
--
--
--
Violência
sexual
Não
respondeu
21
100
--
--
--
--
--
--
--
--
--
--
--
--
--
--
0.9838
Praticou
0
--
--
--
01
100
--
--
--
--
--
--
--
--
--
--
Não
praticou
129
97
--
--
01
0,7
01
0,7
--
--
--
--
--
--
--
--
Tabela 4: Associação entre violência praticada e frequência que consome bebidas alcoólicas, Picos PI, Brasil, 2019.
Tipo de violência
Não
informado
Nunca
Uma vez por
mês ou
menos
Duas a
quatro vezes
por mês
Duas a três
vezes por
semana
Quatro ou
mais vezes
por semana
p-value
N
%
N
%
N
%
N
%
N
%
N
%
Violência
psicológica
Não Respondeu
05
41,6
03
25
02
16,7
02
16,7
--
--
--
--
0.7553
Praticou
11
31,4
03
8,6
17
48,6
03
8,6
--
--
01
2,8
Não praticou
47
43,5
19
17,6
29
26,9
10
9,3
01
0,9
02
1,8
Violência
física
Não respondeu
03
33,3
01
11,1
04
44,5
01
11,1
--
--
--
--
0.1119
Praticou
15
28,8
06
11,5
20
38,5
07
13,5
01
1,9
03
5,8
Não praticou
45
47,9
18
19,1
24
25,6
07
7,4
--
--
--
--
Violência
sexual
Não respondeu
09
42,9
03
14,3
05
23,8
03
14,3
--
--
01
4,7
0.9797
Praticou
--
--
--
--
01
100
--
--
--
--
--
--
Não praticou
54
40,6
22
16,5
42
31,6
12
9,0
01
0,8
02
1,5
A maior prevalência de situações de violência entre
adolescentes reforça a existência de desigualdades sociais
como moradia, saúde, educação, cultura e lazer. Sabe-se,
que as situações de pobreza, desigualdade econômica e
desemprego de um ou ambos os genitores, são fatores de
risco para o envolvimento com as violências.14 Esse fator
esteve presente na amostra do estudo, em que mais da
52 | Neto, J.
Artigo Original Quantitativo
metade dos/as participantes adolescentes possuem uma
renda média familiar de até 1 salário mínimo.
Ainda, estatísticas apontam que jovens negros e pobres
estão mais expostos à morte por causas externas e
estigmatizados a um comportamento agressivo e violento.15
Apesar da maioria dos/as participantes do estudo se
considerarem pardos/as, entendida como a pessoa que
possui ascendência étnica de mais de um grupo, ou seja,
mestiça, acredita-se que a descendência negra esteja
presente e possivelmente uma ocultação da cor seja
preferível, uma vez que existe diferença no comportamento
social entre pessoas da cor negra; visto que, quanto mais
escuro, mais discriminado na sociedade. De um modo
geral, os/as participantes do estudo estariam mais
susceptíveis à perpetração e vitimização em decorrência de
sua cor/raça/etnia.16
Embora revelado o sexo feminino como maior perpetrador
de violência em números totais neste estudo, destaca-se que
este resultado pode ter relação com a maior participação de
mulheres na amostra, uma vez que a prevalência de
envolvimento em situações de violência, seja como agressor
ou como vítima, é maior em adolescentes do sexo
masculino. Ser do sexo masculino é apontado como
preditor de respostas violentas em situações de confronto
ou vitimização. Uma possível explicação para esse fato é
que o comportamento agressivo masculino é tolerado e
muitas vezes estimulado em sociedades com dominação de
padrões culturais machistas.17
A literatura aponta que meninos estão mais expostos à
violência, especialmente no contexto extrafamiliar,
constituindo-se em um grupo de risco para testemunhar,
sofrer e perpetrar atos violentos;18que, por apresentarem
com mais frequência comportamentos agressivos,
envolvem-se mais em situações de lutas, brigas, roubos,
crimes violentos e vandalismo.19
O comportamento agressivo, que é mais praticado por e
contra adolescentes do sexo masculino, faz parte da
construção de uma masculinidade almejada, com
demonstração de virilidade, em busca de aceitação social.15
Esse fato pode ser explicado pela maior tolerância social de
um comportamento violento entre homens.11 A afirmativa
corrobora com dados deste estudo, que evidenciou
adolescentes do sexo masculino como as maiores vítimas
de violência perpetrada por seus pares, sendo estas em sua
maioria, ocorridas no ambiente por eles frequentados, a
escola.
Autores8 afirmam que a violência no ambiente escolar tem
se tornado um problema global com consequências
individuais e coletivas, sobretudo no campo da saúde.
Assim, vale destacar que na adolescência, a vítima possui
poucos recursos para evitar e/ou defender-se da agressão.
Entre escolares, participar de brigas físicas, bullying e portar
armas são reconhecidos fatores de risco para as violências
na juventude14 e tal situação direciona uma atenção para
este ambiente, uma vez que a escola deve ser considerada
como um ambiente de intervenção e amplificador de
medidas de controle contra a violência, por tratar-se de um
local de aprendizagem e desenvolvimento de habilidades
sociais, culturais e hegemônicas que os adolescentes
utilizarão para a vida, bem como, por ser um local de
convívio e relações sociais, onde os jovens mantêm contato
direto com outros jovens da mesma faixa etária, podendo
ser um local propício para redução de comportamentos de
risco à violência.11,20
A escola, como formadora de vínculos, tem papel
primordial na identificação de comportamentos violentos e
retrativos, e desta forma, fatores como baixa no
desempenho escolar, agressividade contra discentes e
docentes, isolamentos e hostilidades são comumente
identificados pelos educadores, pois adolescentes passam
grande parte do dia dentro do ambiente educacional e é
que os maiores índices de perpetuação da violência são
vivenciados,20 sendo portanto, a escola um local propício
para aplicação de ações de enfrentamento ao problema,
havendo a necessidade de parcerias com outros setores e
com os pais/responsáveis.
Na Colômbia, um programa de reabilitação contra
violências implantado nas escolas resultou em uma
diminuição significativa de violência entre escolares.21 No
mesmo contexto, uma revisão sistemática apontou que nos
Estados Unidos a relação dos pais com a escola na
identificação de comportamentos de risco causou uma
diminuição tanto na violência doméstica, como na
escolar.22
Em estudo8 com 239 adolescentes indicou associação
estatística entre alto risco para a agressão e consumo de
álcool (RP=2,26 e IC95%: 1,25-4,11) e com isso, afirmou
que o consumo de bebida alcoólica é importante fator
situacional que pode precipitar o envolvimento do
adolescente com a violência.
Acredita-se que a vergonha e o estigma de expor o
contato/uso de álcool é o motivo da maioria das respostas
em branco. Por facilitar episódios violentos, sociedade e
família partilham percepções negativas referentes aos
adolescentes que utilizam drogas lícitas e ilícitas, pois
muitas vezes os usuários são estigmatizados.23
Além da violência, o consumo de álcool nesta fase pode
acarretar uma série de prejuízos escolares, tendo em vista
que a memória é função fundamental no processo de
aprendizagem e ela pode ficar comprometida devido ao
consumo da bebida alcoólica.8 De fato, quando se fala em
uso/abuso de álcool na fase da adolescência uma grande
preocupação com o rendimento escolar, uma vez que o
consumo excessivo leva à queda acentuada no desempenho
do processo ensino-aprendizagem.24 Segundo o mesmo
autor, adolescentes que fazem uso de álcool se ausentam
com maior frequência das aulas, perdendo a totalidade do
processo pedagógico e àqueles que conseguem frequentar
as aulas, apresentam sonolência, lentidão e dificuldades
para entender o que o professor diz.
Ainda, pesquisas apontam para danos cerebrais (no
hipocampo) causados pelo uso álcool, envolvendo o
aprendizado e a memória, uma vez que o hipocampo é o
local do cérebro no qual a memória é formada e depois
distribuída para outras áreas cerebrais.25 Além disso, danos
no hipocampo podem prejudicar a formação de novas
memórias, o que influencia no processo de aprendizagem.26
Assim, com a queda do rendimento escolar, ocorre redução
Pensar Enfermagem / v.28 n.01 / maio 2024 | 53
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Artigo Original Quantitativo
da autoestima, o que representará um provável fator de
risco para maior envolvimento com mais experimentação,
consumo e abuso de substâncias psicoativas.25
Ainda, um fato que chama a atenção diante dados obtidos
neste estudo, volta-se ao descumprimento das políticas
públicas/legislativas para a prevenção do consumo de
álcool e drogas, tendo em vista que a venda de bebidas
alcoólicas à adolescentes menores de 18 anos é proibida no
Brasil pela Lei 13.106, de 17 de março de 2015(27). Em
diversas circunstâncias, o uso de bebidas alcoólicas torna-
se a porta de entrada para o uso abusivo e o início do
consumo de drogas ilícitas,28 bem como, com o
envolvimento em episódios violentos, o que requer da
sociedade se pensar em estratégias de prevenção frente a
este grupo populacional.
Por fim, diante dos resultados, observa-se que adolescentes
perpetram violência contra seus pares especialmente em
espaços sociais que possibilitam a convivência, como na
escola. Assim, o ambiente escolar desponta como lócus
estratégico de enfrentamento a este dano, uma vez que nele
se favorece a identificação/intervenção de fatores de risco
associados à violência entre adolescentes, propiciando-se a
introdução de medidas de controle, como ações
preventivas e educativas e uma cultura de paz.8
Conclusão
O estudo apontou que adolescentes praticam atos de
violência em seu cotidiano, com destaque ao dano entre
seus pares e no ambiente escolar. Adolescentes estão
expostos à fatores de vulnerabilidade dentro e fora do
contexto familiar e seu envolvimento em atos violentos
produzem efeitos comportamentais que podem ser
deletérios ao longo da vida.
O sexo feminino obteve expressividade na amostra deste
estudo e há relação entre prática da violência física por este
público. Isso denota a necessidade de novas abordagens
profundas ao tema com amostras pareadas a fim de
clarificar a suposta relação demarcada nesta pesquisa.
Apesar de apresentar achados importantes, o estudo tem
como limitações o baixo acesso à dados científicos que se
voltem para a perpetração de violência por adolescentes na
literatura, o que denota a importância de estudos com essa
finalidade, a fim de possibilitar uma análise aprofundada
dos fatores associados a esse dano, suas manifestações e
implicações a curto, médio e longo prazo.
Contribuições autorais
Costa, JR: Conceção e desenho do estudo; Recolha de
dados; Análise e interpretação dos dados; Análise estatística;
Redação e Revisão crítica do manuscrito.
Silva, MMO: Redação e Revisão crítica do manuscrito.
Cruz Neto, J: Análise e interpretação dos dados, Redação e
Revisão crítica do manuscrito.
Lopes, MSV: Redação e Revisão crítica do manuscrito.
Albuquerque, GA: Conceção e desenho do estudo, Redação
e Revisão crítica do manuscrito.
Conflitos de interesse e Financiamento
Nenhum conflito de interesse foi declarado pelos autores.
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