“Então, a gente não consegue fazer um trabalho completo, assim, como
enfermeira obstetra, sabe? Isso é uma coisa que me incomoda
bastante”. (ENF04)
Intenção de deixar o emprego entre enfermeiros
obstetras
A intenção de deixar o emprego foi verificada mediante o
desapontamento em trabalhar no centro obstétrico.
“Já me senti melhor! Já foi o meu sonho trabalhar ali. Atualmente,
estou vendo estratégias para me sentir melhor ou para, talvez, até
conseguir outro emprego”. (ENFO5)
“[...]tu não consegue trabalhar assim, tu acaba te isolando da... De
uma forma até dolorida, mas tu acaba te afastando das pacientes e
da vontade de abandonar tudo [...]” (ENF06)
Discussão
A satisfação no trabalho e a intenção de deixar o emprego
entre enfermeiros obstetras estão ligadas a fatores que
refletem um cenário organizacional e sistêmico. A
insatisfação, frequentemente manifestada por desafios
como carga de trabalho excessiva, falta de reconhecimento
e barreiras à implementação de práticas humanizadas, gera
um impacto negativo tanto no bem-estar dos profissionais
quanto na qualidade do cuidado prestado. A insatisfação no
ambiente de trabalho está associada à carga de trabalho
excessiva, onde o volume de atividades supera a capacidade
operacional dos enfermeiros, gerando desgaste físico e
mental.12 A dificuldade em implementar práticas
humanizadas, especialmente em contextos que priorizam o
modelo biomédico, leva ao desalinhamento com os
princípios éticos e profissionais dos enfermeiros. 13 A
pouca valorização do aprendizado especializado dos
enfermeiros obstetras pela equipe médica, como no caso do
manejo do parto normal, acentua o sentimento de
desmotivação. 7 Relações interpessoais difíceis e a ausência
de apoio institucional também agravam o
descontentamento. 14 O adoecimento dos profissionais de
enfermagem obstétrica surge como uma ameaça à
continuidade da assistência de qualidade. Fatores como
exaustão emocional e a sensação de impotência diante de
decisões alheias às boas práticas colaboram para quadros de
estresse, burnout e afastamento do trabalho.5 A
insatisfação, combinada com o desgaste emocional,
influencia significativamente a intenção de rotatividade,
especialmente quando os enfermeiros percebem que suas
competências e valores profissionais não são
reconhecidos.15 Estudos mostram que ambientes
favoráveis, com suporte psicológico e reconhecimento das
contribuições individuais, são essenciais para reverter esse
cenário.16 Para mitigar esses desafios, são necessárias ações
como a revisão das políticas institucionais para promover
condições de trabalho mais justas, com equipes adequadas
e redução da sobrecarga.17 Oferecer oportunidades de
desenvolvimento e atualização profissional que valorizem a
atuação especializada dos enfermeiros obstetras também é
fundamental.7 Além disso, é necessário implantar
programas de apoio psicológico que cuidem da saúde
mental dos profissionais e fortalecer o diálogo
interprofissional, promovendo a inclusão dos enfermeiros
nas decisões de cuidado. 15 A interação entre satisfação no
trabalho e intenção de deixar o emprego reflete a
necessidade de um olhar holístico sobre as condições de
trabalho e os fatores institucionais que impactam a prática
dos enfermeiros obstetras. A valorização desses
profissionais é essencial para garantir a retenção e a
melhoria contínua na assistência obstétrica. 14
Conclusão
Percebe-se através dos resultados que os enfermeiros
obstetras estão insatisfeitos com o trabalho e apresentaram
intenção de deixar o emprego. Este estudo contribui tanto
para a prática quanto para a teoria ao evidenciar as
complexas dinâmicas que influenciam a satisfação no
trabalho e intenção de deixar o emprego entre enfermeiros
obstetras. Na esfera prática, os resultados destacam a
necessidade de reavaliar o ambiente de trabalho e as
práticas de gestão em instituições de saúde, propondo
maior valorização e reconhecimento do conhecimento
especializado desses profissionais. A falta de autonomia e o
subaproveitamento das competências obstétricas emergem
como fatores críticos que impactam diretamente na
motivação e na retenção desses profissionais, sugerindo a
urgência de estratégias que promovam a autonomia na
tomada de decisões e a integração colaborativa no cuidado
das parturientes.
Do ponto de vista teórico, o estudo reforça a importância
de investigar a relação entre satisfação no trabalho,
valorização profissional e intenção de abandono em grupos
específicos de enfermeiros, contribuindo para um corpo
crescente de literatura sobre bem-estar e gestão no campo
da enfermagem.
As implicações para a gestão e as políticas de trabalho em
enfermagem são claras: é essencial implementar práticas
organizacionais que valorizem o conhecimento técnico dos
enfermeiros obstetras, promovam ambientes de trabalho
inclusivos e estimulem uma cultura de reconhecimento e
autonomia. Adicionalmente, políticas de retenção devem
priorizar intervenções baseadas em evidências que
abordem os fatores de insatisfação destacados,
considerando também as especificidades das instituições
públicas e privadas.
Pesquisas futuras podem expandir essas descobertas,
investigando como as características de diferentes
instituições de saúde influenciam os níveis de insatisfação e