pensamento científico em voga no século XIX. Seu autor
foi o médico francês, Jean-Martin Charcot (Charcot) que
atuava no asilo feminino Salpêtrière, observou e descreveu
um tipo de ferimento presente na pele do paciente
hospitalizado e acamado, vítima de lesão de medula
espinhal, então, denominando-a de “escara de decúbito”,
essa nomenclatura aparece em seu livro “Lectures on
diseases of the nervous system”, publicado em 1877.16
Verifica-se que as primeiras inquietações de Charcot sobre
o ferimento na pele em paciente com lesão de medula
espinhal, datam de 1868. Ante ao fenômeno observado, ao
valer-se da relação de causa e efeito, ele elaborou uma
explicação, mediante à associação entre esse tipo de ferida,
o problema e alteração trófica a envolver a nutrição dos
tecidos. Em sua teorização, a lesão observada era advinda
de uma interrupção do fornecimento de nutrientes para os
nervos, sendo a teoria chamada de Teoria Neurotrófica de
Charcot. Ao descrever a ferida que surgia na pele de
paciente hospitalizado e acamado, ele apontou que o
desenvolvimento se dava em forma de ulceração, seguida
por necrose profunda em região sacral e, segundo ele, a
pressão local não seria a responsável pela erupção.15-17,22
Ele considerou que o aparecimento de “escara de decúbito”
era de curso indolente, lento e progressivo. Sua teoria
permitiu diferenciar os ferimentos que acometiam a pele
entre as lesões passivas (decorrente da inatividade
funcional) e os distúrbios tróficos secundários as lesões
agudas do sistema nervoso. Nessa direção, classificou os
tipos de lesões na pele, partindo do momento de seu
aparecimento, a saber, Decubitus ominosus (ferida que surge
na nádega antes da morte do paciente); Decúbito agudo
(ferida que aparecia após uma lesão neurológica e
correlacionou a localização do dano da pele com o nervo
presente na área em que ocorria a ulceração); Decúbito
crônico (ferida que surgia na pele de paciente inativo).15-17,22
A publicidade da Teoria Neurotrófica de Charcot em meio
à comunidade científica possibilitou o intenso debate. Sabe-
se que a ciência se desenvolve a partir do confronto de
ideias daqueles que a fazem, dessa forma, permitindo
elucidar o fato em análise, teorizar e identificar a evidência
que possa ratificar a explicação dada. Tal fato foi observado
no episódio da história da ciência em saúde que, envolveu
a Eduard Brown-Sequard (Brown-Sequard),
neurofisiologista e opositor da Teoria Neurotrófica de
Charcot.3-5,10,15-17,22
Em seus estudos de experimentação envolvendo animais,
Brow-Sequard afirmou que ao seccionar a medula espinhal
de cobaia, desde que instituída medida de prevenção para
ferida, tais como, higiene diária da pele e manter o local
seco e livre de dejeto, não ocorria ulceração. Ele constatou
ainda que, no caso de ulceração, quando aliviada a
compressão e mantidas as medidas mencionadas, era
possível curá-la. Desse experimento, esse neurologista
firmou o êxito dessas ações preventivas e considerou que a
ulceração da pele que aparecia no paciente com paraplegia
não era diretamente decorrente desta.15-17,22
Brown-Sequard dedicou-se à busca por identificar ações
que pudessem prevenir o surgimento do ferimento na pele,
enquanto a teoria de Charcot defendia a impossibilidade de
prevenir a “escara de decúbito”, pois para esse último, tal
lesão era uma consequência do adoecimento lento, gradual,
progressivo e irreversível do nervo.15-17,22
Em 1873, James Paget, cirurgião e patologista inglês, no
artigo “Clinical lectures on bedsore”, deixou sua
contribuição ao levantar a tese de que a pressão sobre a pele
pudesse estar na gênese da lesão e, considerou que, se a área
afetada não fosse limpa de dejeto humano, a ferida na pele
teria rápido desenvolvimento, sobretudo, em região de
proeminência óssea, mormente, o calcâneo, o quadril e a
região sacral.15-17,22
Inserida nesse contexto de debate científico, a enfermagem
desenvolvia a sua pragmática assistencial mesclando
práticas antigas e modernas na assistência ao paciente
hospitalizado acamado e com ferida na pele. Em razão de
sua prática acontecer no interior do hospital, a enfermagem
teve importante papel para que o hospital viesse a
constituir-se em um local terapêutico, pois entre o mote de
sua ação estava, dentre outros, a alimentação, a higiene
corporal e o conforto do paciente.15-17,22
No paradigma Empírico, a educação da enfermeira era
realizada a partir de manual escrito pelo médico. É por
meio dos manuais que, na ciência normal, os achados
científicos são compartilhados por uma comunidade
científica e, com isso, promovem a sua unidade - condição
necessária para a construção do corpo de conhecimento
científico e a transmissão para os ingressantes. Ao
considerar o fazer de enfermagem, o manual permitiu a
enfermeira agir e justificar o seu saber-fazer.15-17,22
A medicina hospitalar compreendeu que sem o incremento
da formação intelectual da enfermeira, não ocorreria a
transformação do hospital em um local terapêutico. Essa
aproximação entre a medicina e a enfermagem permitiu que
a enfermeira passasse a ter acesso às descobertas científicas
e formulações teóricas, tais como, a teoria celular, a
microbiologia e o debate conceitual entre Charcot e James
Paget sobre a “escara de decúbito”.15-17,22
Foi nesse contexto que a enfermagem estabeleceu uma
grade curricular a conter, entre outras, as disciplinas de
anatomia, higiene, preparo e administração de medicação,
aula teórica e prática de cuidado ao paciente. No paradigma
Empírico, a enfermeira era a responsável pelo curativo de
‘escara de decúbito’ e as ações incluíam lavar, cobrir com
gaze, cauterização e remoção do tecido desvitalizado.15-17,22.