
Pensar Enfermagem / v.29 n.Sup / jan-dez 202
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DOI: 10.71861/pensarenf.v29iSup.412 / e00412
Artigo Original Qualitativo
unanimidade de acertos da afirmativa 4, mesmo antes do
curso. Entretanto, face à problemas gerenciais, percebidos
por todos em ambos os momentos de avaliação, os
cuidados de saúde primários enfrentam desafios para
atender a todos os públicos de maneira eficaz e abrangente,
como a limitação de recursos e a falta de conhecimentos
dos profissionais de saúde sobre alguns cuidados.
Essas dificuldades são ampliadas quando se considera a
necessidade de integrar cuidados paliativos no ensino dos
profissionais, diante do envelhecimento populacional e do
aumento da demanda por cuidados holísticos, que
abrangem as dimensões físicas, emocionais e espirituais12.
Mas o reconhecimento prévio de que os profissionais dos
cuidados de saúde primários podem fazer diferença nos
cuidados paliativos, porque têm acesso fácil aos utentes,
estão próximos aos domicílios, e sensíveis à realidade da
comunidade, é crucial para investir nas ações que
promovam a qualidade de vida dos utentes com condições
crónicas e/ou em fim de vida, e assim, melhorar os
indicadores de qualidade para cuidados paliativos, como
aumentar o tempo de permanência do utente em casa e
diminuir o uso das urgências, bem como de internamentos
inapropriados13.
Isso se deve ao fato de que o reconhecimento das
necessidades paliativas, e o atendimento dessas
necessidades menos complexas por esse conjunto de
profissionais pode ampliar o acesso aos cuidados paliativos,
que focados no alívio da dor e de outros sintomas
angustiantes, e na comunicação eficaz, melhoram a
qualidade de vida desses utentes e seus familiares,
contribuindo, inclusive para a morte em casa14.
Desse modo, integrar os cuidados paliativos na assistência
domiciliária vai ao encontro do atendimento dos desejos e
preferências de muitas pessoas, uma vez que resultados de
estudos apontam ser esta a opção de muitos doentes em
fim de vida, principalmente, de idosos15. Além disso, a
assistência domiciliária fortalece os cuidados de saúde
primários e otimiza os recursos do sistema de saúde. As
consultas domiciliares garantem um cuidado adequado no
ambiente familiar, com suporte contínuo do médico e
enfermeiro de família16.
No entanto, para superar as barreiras encontradas e
favorecer a integração efetiva dos cuidados paliativos nos
cuidados de saúde primários, são necessárias estratégias e
recursos para formação profissional. Uma das ferramentas
eficazes é a EPS, para assim oferecer cuidados compassivos
e holísticos, assegurando que os utentes e suas famílias
recebam o suporte necessário durante momentos
desafiadores de suas vidas, e possam manter o desejo de
ficar em casa.
Os profissionais de saúde precisam de um amplo
conhecimento e de habilidade para atender adequadamente
às necessidades desses utentes, e estarem
instrumentalizados para o trabalho em equipa, em
articulação com os cuidados paliativos especializados
sempre que necessário. Além disso, a EPS amplia os
recursos para possíveis discussões de prognósticos, opções
de tratamento, preferências de fim de vida, como também
desperta habilidades de comunicação sensíveis e eficazes,
de forma compassiva e humanizada17.
Ademais, voltando ao destaque dos resultados das
afirmativas 3 e 8, sobre conceitos relacionados aos tipos de
morte, apesar de não serem tão recentes, ainda são pouco
difundidos e perpassam dúvidas. Estudos apontam que
essa deficiência vem desde a formação na licenciatura de
profissionais de saúde, uma vez que os cursos não incluem
cuidados paliativos em suas grades curriculares,
nomeadamente, a bioética que perpassa por este tema18.
Esta realidade evidencia que este tema deve ser alvo de
novas atividades de formação direcionadas a profissionais
de saúde, tendo a EPS como uma ferramenta essencial,
associada à educação popular em saúde para o público em
geral, para assim explicitar a diferença entre os tipos de
morte, esclarecendo os contextos éticos e práticos em que
cada um se aplica19. Além disso, pode fomentar discussões
sobre as implicações legais e éticas, ajudando profissionais
de saúde a compartilhar decisões informadas e compatíveis
com as leis e os valores éticos vigentes no país20.
A partir disso, é válido mencionar que a falta de
conhecimento sobre a legislação associada à necessidade de
maior conscientização e educação não somente do
profissional, mas também da sociedade, representa um
grande obstáculo para a implementação eficaz dos cuidados
paliativos. É necessário o conhecimento dos direitos e
deveres como cidadãos, em busca da defesa de políticas
públicas e engajamento comunitário para garantir que os
cuidados paliativos sejam compreendidos, valorizados e
adequadamente integrados no sistema de saúde.
A aplicação do curso de capacitação pode contribuir para o
fortalecimento da rede para cuidados paliativos no SUS,
para garantir integralidade, acessibilidade e o cuidado
centrado no utente e na família. A abordagem integrada e
colaborativa entre os serviços da RAS, com maior
participação dos cuidados de saúde primários para cuidados
paliativos generalistas, melhora a qualidade do atendimento
e otimiza o uso de recursos.
A atualização constante dos profissionais de saúde quanto
a sua capacitação e qualificação é um aspecto central da
Política Nacional de Educação Permanente, que visa o
desenvolvimento de estratégias para a continuidade e
integralidade dos serviços21. A EPS deve ser entendida
como um processo contínuo, ajustado às necessidades e
diretrizes do sistema de saúde, particularmente dos
contextos de prática22.
O curso, ao encontro das recomendações globais para
formação profissional em cuidados paliativos2, e pautado
em evidências científicas, assume o compromisso de
transferir conhecimento para a prática e melhorar
indicadores em saúde, como uma estratégia em que se
espera resultados cumulativos na aquisição de