profissionais na resolução de problemas graves e
ameaçadores da vida. 8 Mas o afastar da morte a todo o custo
e a redução da pessoa a um corpo doente com problemas a
serem resolvidos por protocolos terapêuticos complexos e
altamente tecnológicos destruturou o sentido do cuidar do
Ser Humano como ser biopsicossocial com sentimentos,
crenças, preocupações e vontade próprias criando uma
barreira entre a pessoa e as equipas de saúde que encaram a
morte como um falhanço e o sofrimento como uma
consequência que se pode sedar ou suprimir com fármacos.9
Esta postura de distanciamento e abstração da pessoa
cuidada como um Ser Humano assumida pelos
profissionais, muitas vezes como uma defesa contra as suas
frustrações e medos, prejudica a qualidade dos cuidados no
sentido em que afeta a tomada de decisão ética, a criação de
vínculos terapêuticos e de relações de confiança entre a
pessoa e a sua equipa de saúde para que se sinta apoiada e
escutada em todas as suas necessidades individuais.10 Desta
mudança na conceção da pessoa cuidada em contexto de
urgência surgem o paternalismo e o “desaparecimento do sujeito
humano” que Ávila-Morales11 classifica como a
desumanização da saúde: uma perda de Valores
fundamentais na procura eficiente da cura das enfermidades
orgânicas da qual decorre a despersonalização da Pessoa
através da utilização de codificações de doença, ausência de
relação com a pessoa cuidada; o não reconhecimento da
dignidade individual pela aplicação de princípios de
igualdade entre todos; a falta de participação da pessoa na
tomada de decisão, a implementação de uma dinâmica de
poder sobre a pessoa e as suas decisões e a conceção da
mesma como uma entidade biológica caracterizada por uma
patologia (doente psiquiátrico, seropositivo, etc.). Nos SU
estes aspetos assumem uma dimensão acrescida dado que a
pessoa se encontra uma situação aguda em que a sua
capacidade de decisão pode estar comprometida e o objetivo
é um tratamento rápido e eficaz que a retire de uma situação
de risco de vida. Esta despersonalização do cuidar
multiplica-se de forma incalculável aquando do acesso
excessivo aos serviços onde as condições físicas são
inadequadas e os rácios de profissionais são
desproporcionais, o que retira tempo adequado à prestação
de cuidados.12 O cansaço físico e psicológico dos
profissionais e a complexidade crescente do doente no SU
são apontados como índices de falta de efetivação de
práticas de qualidade, nomeadamente na personalização do
cuidado que Barros13 declara serem os motores para dar
início a uma reflexão profunda sobre a qualidade das
práticas dos cuidados nos SU. Assim sendo, surge um
problema de investigação: a promoção da humanização dos
cuidados prestados pela equipa multidisciplinar nos serviços
de urgência de adultos.
Os serviços prestadores de cuidados de saúde seguem
princípios científicos na sistematização e organização do
trabalho com o objetivo máximo de preservação da vida
com a ajuda de meios tecnológicos avançados nas áreas de
apoio ao diagnóstico e terapêutica.14 Quando se aborda a
humanização dos serviços de saúde a primeira tentação pode
ser associar a estes projetos uma crítica à forma como os
cuidados são prestados atualmente, podendo até considerar-
se um insulto à falta da capacidade humanista dos
profissionais que trabalham nos serviços, o que gera uma
reação negativa e resistências à sua implementação.15 Outra
tentação é considerar que a humanização dos cuidados
coloca em causa o método científico implementado pelos
profissionais para salvar vidas diariamente numa tentativa de
os tornar “boas pessoas” ou exigir deles altruísmo e
bondade imensuráveis numa harmoniosa relação com a
pessoa cuidada.16 É necessário desmistificar que os
profissionais são os principais causadores da desumanização
do Cuidar já que, pelo contrário, são eles igualmente vítimas
do sistema implementado que, focado no modelo
biomédico e na gestão dos serviços financeira, economicista,
rígida, burocrática e hierarquizada verticalmente, prejudica
as relações entre pessoas cuidadas e as equipas de saúde
retirando a autonomia às duas partes deste binómio da
prestação de cuidados.17
O Humanismo é um conceito filosófico que concebe a
dignidade da condição humana como valor máximo da vida,
definindo que o Ser Humano tem como missão procurar
compreender o Homem e criar ferramentas que
reconhecem o Outro como ser individual, livre, com
potencial e autonomia próprios e com direito à felicidade.18
Os princípios do Humanismo, quando aplicados aos
desafios na área da Saúde, implicam necessariamente um
realinhamento dos objetivos da prestação de cuidados para
além da classificação, cura e tratamento de doenças e a
desfragmentação do conceito de Cuidar como sinónimo de
prestação de serviços que foca os aspetos biomédicos e
oculta tudo o que torna a pessoa cuidada, efetivamente,
Pessoa.19 Ao processo de mudança de perspetiva na
prestação de cuidados de saúde pode chamar-se, assim,
“Humanização” no sentido em que se valoriza a interação
dos diversos intervenientes na prestação de cuidados
(gestores, profissionais de saúde, pessoas cuidadas e os seus
familiares) com o respeito pela dignidade e autonomia
individual de cada pessoa através da sociabilidade, empatia,
compreensão das crenças, valores e perspetivas do outro,
otimismo e algum grau de afeto por aqueles que sofrem.20 A
criação de vínculos entre os profissionais de saúde e aqueles
de quem cuidam é o cerne da Humanização do Cuidar dado
que é a relação terapêutica que reflete a valorização do Ser
Humano e a atitude ética e humana na abordagem à pessoa
que se encontra numa situação de particular
vulnerabilidade.21 É esta mudança na orgânica do sistema de
saúde como um todo que permitirá prestar cuidados dignos,
éticos e personalizados onde o diálogo e a escuta são tão
fundamentais como um estetoscópio e no qual a melhoria
das condições físicas e técnicas terá sempre em vista o
conforto daqueles que utilizam os serviços de saúde.22 A
humanização dos cuidados possibilita a