Artigo Original Qualitativo
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Pensar Enfermagem / v.30 n.01 / Jan-Dez 2026 / DOI: 10.71861/pensarenf.v30i1.443 / e00443
[...] até o meu marido. Ele e o meu filho, eles notaram logo que eu fervia em pouca água, que é mesmo assim, principalmente com
o pequenino porque é natural, não é, isto às vezes eles fazem com cada uma que nós…eu acabava logo por me saltar a tampa e
agora estou muito mais calma, acabo por pensar um bocadinho antes da forma como ralho com ele e tudo mais. Tou bastante
diferente, estou bastante diferente, é verdade. (G25P)
Discussão
Relativamente ao perfil das participantes do Brasil, verifica-se que as suas características sociodemográficas são
compatíveis com a população que recorre aos serviços públicos de saúde, maioritariamente constituída por
mulheres com baixos rendimentos e sem acesso a serviços de saúde suplementares. No que respeita à faixa etária
das grávidas brasileiras incluídas no estudo, esta encontra-se em conformidade com os dados da pesquisa Nascer
no Brasil8, que indica uma representatividade de 69,3% na região Nordeste. Por sua vez, as participantes de
Portugal apresentam um enquadramento sociodemográfico distinto, caracterizado por mulheres com
rendimento familiar superior ao das participantes brasileiras e a faixa etária mostra a tendência para a
maternidade tardia conforme dados da Pordata.9
No contexto da gravidez, quer a maioria das participantes do Brasil como as de Portugal já tinham vivenciado
gestações anteriores, embora a atual não tivesse sido planeada, contudo a satisfação por estarem grávidas
revelou-se significativa.2,10 Os desconfortos relatados pelas participantes são típicos do terceiro trimestre,
período em que as modificações anatómicas e fisiológicas da gestação frequentemente impõem limitações diárias
e queixas específicas. Segundo a MTC, tais desconfortos podem estar relacionados a desequilíbrios energéticos
que são atribuídos à falta de fluidez das energias Yin (Xue) e Yang (Qi) no organismo materno. Esta perspetiva
reforça a importância da acupressão como método para estimular o fluxo energético harmonioso do corpo.11
Os resultados sugerem um impacto positivo da Auriculoterapia na mitigação dos desconfortos físicos relatados
pelas participantes deste estudo. Observou-se uma melhoria nos casos de lombalgia, edema dos membros
inferiores e cãibras — sintomas associados às alterações mecânicas da gestação — após a aplicação da terapia
neste grupo.12
Para além dos desconfortos físicos, as participantes referiram desconfortos emocionais, incluindo impaciência,
ansiedade e stress. Estes sentimentos podem estar associados à intensidade variável das experiências sensoriais
desagradáveis e aos demais desconfortos próprios do período gestacional. É reconhecida a correlação entre a
dor e o estado emocional; este último pode intensificar a perceção dolorosa na grávida, cujo organismo está
sujeito a alterações fisiológicas. Neste contexto, autores referem que a experiência de dor durante o ciclo
gravídico-puerperal pode alterar o estilo de vida da mulher e influenciar os desfechos da gravidez.13
Entre as modificações fisiológicas da gestação, a ansiedade surge frequentemente como uma resposta adaptativa
perante a incerteza e o medo. Estudos têm destacado este período pela sua fragilidade e flutuação emocional,
com repercussões diretas na saúde mental materna.14,15 Esta resposta é, em parte, desencadeada por estímulos
sensoriais e alterações no sistema nervoso, influenciados pela produção de hormonas placentárias. Tais
mudanças orgânicas podem manifestar-se através de crises de ansiedade e irritabilidade, frequentemente atípicas
no quotidiano da mulher antes da gravidez.16,17 A intervenção de Auriculoterapia neste grupo de participantes,
mostrou que esta poderá ser uma alternativa eficaz para minimizar estes transtornos aumentando o bem-estar
na gravidez.13 Em consonância com os dados da presente investigação, estudos confirmam que a
Auriculoterapia está associada à libertação de endorfinas, contribuindo para a redução dos níveis de ansiedade
em mulheres grávidas. Estes resultados reforçam a relevância desta técnica como um recurso terapêutico eficaz
na promoção de um cuidado holístico durante a gestação.12,18
Foi notório nos resultados que a Auriculoterapia foi percebida pelas participantes, que para além dos benefícios
de minimização dos desconfortos físicos e emocionais, teve influência positiva no relacionamento com
familiares e outras pessoas do seu círculo social ou rede de apoio. A rede de apoio familiar e social constitui o
principal pilar de confiança da grávida para a partilha de vivências emocionais. Contudo, a literatura alerta que
a ansiedade gestacional é, por vezes, desvalorizada por esta rede, sendo encarada como um sintoma comum ou
'passageiro' da fisiologia gravídica. Esta desvalorização pode inibir a expressão emocional da mulher devido a
sentimentos de vergonha.19 Em sentido oposto, as participantes do presente estudo reportaram atitudes de
acolhimento e reconhecimento por parte da sua rede de apoio, o que parece ter favorecido uma postura mais
positiva durante a gestação.
Sob esta perspetiva, a MTC apresenta um vasto leque de possibilidades terapêuticas, incluindo o alívio dos
sintomas referidos pelas grávidas. Através da Auriculoterapia, é possível promover o equilíbrio energético do
organismo.20
Nesse contexto, diretrizes do Ministério da Saúde brasileiro reforçam a relevância das práticas integrativas e
complementares como estratégia eficaz para atenuar desconfortos físicos e emocionais em mulheres grávidas.
Além disso, destacam a importância dessas práticas na prevenção de transtornos mais severos durante o