Editorial
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Pensar Enfermagem / v.29 n.01 / Jan-Dez 2025 / DOI: 10.71861/pensarenf.v29i1.472
Portugal, esta realidade é agravada por baixos níveis de literacia em saúde, desigualdades socioeconómicas
persistentes e dificuldades de navegação no sistema, amplamente documentadas no RADIS 2025.3 Uma em
cada três pessoas refere sentir-se perdida no percurso assistencial, sendo a comunicação na gestão da doença
identificada como fragilidade estrutural.3
A fragmentação entre cuidados de saúde primários, hospitalares, continuados e respostas sociais traduz-se em
internamentos evitáveis, internamentos sociais, duplicação de atos e sofrimento evitável para pessoas (e
cuidadores familiares) que necessitam, sobretudo, de continuidade, previsibilidade e acompanhamento
próximo13. Não surpreende, assim, o aumento dos internamentos não planeados observado nos últimos anos,
com custos sociais e económicos.2,3
Neste enquadramento, as orientações internacionais convergem na defesa de modelos de cuidado centrado na
pessoa, orientados para a coordenação, integração e acompanhamento longitudinal ao longo das trajetórias de
doença.4,13,14 É neste domínio que a enfermagem avançada, e em particular a intervenção do enfermeiro gestor
de caso, assume uma relevância ímpar. A evidência científica demonstra que enfermeiros com competências
avançadas em avaliação holística e sistematizada, definição de diagnósticos centrados nas necessidades da
pessoa, coordenação clínica, articulação organizacional e desenvolvimento de relações terapêuticas sustentadas
se encontram particularmente bem posicionados para reconhecer o sofrimento, compreender o impacto da
doença no quotidiano, identificar os recursos disponíveis e responder de forma integrada às necessidades
clínicas, emocionais e sociais da pessoa em situação crónica e complexa.15–17 A sua atuação não substitui outros
profissionais, antes articula, coordena e dá coerência ao percurso da pessoa com doença crónica complexa,
assegurando continuidade ao longo das transições em saúde e entre contextos assistenciais.17
Modelos de gestão de caso liderados por enfermeiros têm sido associados a melhorias significativas na
continuidade dos cuidados, na redução da carga de tratamento, na satisfação da pessoa e na utilização adequada
dos serviços, traduzindo ganhos clínicos e organizacionais sustentados.16,18–20
Em Portugal, o rácio de enfermeiros por 1.000 habitantes permanece abaixo da média da OCDE, e o
investimento em prevenção e cuidados primários continua limitado.2 Neste contexto, estratégias
organizacionais orientadas para a coordenação e integração dos cuidados, como a gestão de caso, têm sido
associadas na literatura científica a ganhos em eficiência e valor em saúde, sobretudo através da reorganização
dos cuidados.16,20
Os relatórios internacionais sublinham que a satisfação das pessoas com os serviços de saúde está fortemente
associada ao estado de saúde percebido e à qualidade da comunicação.2 Neste domínio, profissionais com
funções de coordenação e acompanhamento longitudinal, como o enfermeiro gestor de caso, intervêm de
forma particularmente relevante ao promover a capacitação da pessoa com doença crónica para compreender
a sua condição, reconhecer sinais de alarme, gerir regimes terapêuticos complexos e participar de forma
informada nas decisões relativas ao seu cuidado, em consonância com os princípios do cuidado centrado na
pessoa e da tomada de decisão partilhada.4,14
Este acompanhamento contínuo tem sido associado à redução da utilização não programada dos serviços de
saúde, ao reforço da segurança clínica e ao aumento da autonomia da pessoa, aspetos particularmente relevantes
num contexto em que a carga da doença crónica se traduz em absentismo laboral e pressão acrescida sobre os
sistemas de proteção social.2,5
Apesar das experiências positivas já existentes em Portugal, a gestão de caso em enfermagem permanece
frequentemente dependente de projetos locais, financiamentos temporários ou da iniciativa de equipas
particularmente motivadas, como ilustram algumas experiências territoriais, entre as quais o Litoral
Alentejano.3,20 Contudo, os dados do RADIS e os relatórios da OCDE evidenciam que a fragmentação dos
cuidados e a inadequação dos modelos organizacionais à cronicidade configuram problemas estruturais e
persistentes, exigindo respostas igualmente estruturais e sustentadas.2,3
Neste enquadramento, a integração formal do enfermeiro gestor de caso nos modelos de cuidados à pessoa em
situação crónica — nos cuidados de saúde primários, hospitalares e continuados — alinha-se com os princípios
do cuidado centrado na pessoa, com a transição de modelos orientados para o episódio agudo para abordagens
baseadas em trajetórias de cuidado, com a aposta na prevenção e na gestão da cronicidade, e com a promoção
de maior equidade territorial e social.4,13 Mais do que uma inovação organizacional, trata-se de uma escolha
ética e estratégica.
A evidência disponível é clara ao demonstrar que os modelos assistenciais tradicionais permanecem
desajustados face à complexidade da cronicidade. O cuidado centrado na pessoa, a coordenação e a organização
longitudinal dos cuidados são reconhecidos como pilares essenciais para responder às necessidades das pessoas
em situação crónica e complexa; contudo, a sua tradução efetiva em decisões políticas, organizacionais e
formativas continua a revelar-se insuficiente.
Neste contexto, o enfermeiro gestor de caso afirma-se como uma resposta coerente com os princípios do
cuidado centrado na pessoa e com as exigências da gestão da complexidade em saúde. A consolidação deste
papel exige, porém, investimento deliberado em formação específica, desenvolvimento de competências