Artigo Original Quantitativo
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Pensar Enfermagem / v.30 n.01 / Jan-Dez 2026 / DOI: 10.71861/pensarenf.v30i1.509 / e00509
uma lacuna na prática clínica, uma vez que os fatores de risco em ambiente comunitário incluem dimensões
sociais, ambientais e comportamentais que não são contempladas por escalas hospitalares.9,10
A Escala de Quedas de Morse foi desenvolvida por Janice Morse em 1985 e, em Portugal, foi adaptada e
validada para a população adulta por Costa-Dias em 2014, sendo recomendada pela Direção-Geral da Saúde
para avaliação do risco de queda em contexto hospitalar.11É, contudo, a escala utilizada em CSP, apesar de não
ser específica para este contexto. Outras escalas foram desenvolvidas para avaliação do risco de queda, mas
poucas foram validadas para uso em CSP. A revisão sistemática de Meekes, publicada no BMJ Open, analisou
seis ferramentas aplicáveis em CSP — incluindo o Timed Up and Go Test (TUGT), Gait Speed, Berg Balance
Scale, POMA e histórico de quedas — e concluiu que nenhuma apresentou desempenho preditivo robusto,
com a maioria dos estudos a reportar AUC entre 0,5 e 0,74. Outras escalas como a STRATIFY e a FRAT
foram testadas em Portugal, mas não demonstraram validade suficiente para uso sistemático em CSP.9,12,13 No
estudo de Savić, a aplicação da escala de Tinetti revelou que a maioria dos idosos com mais de 75 anos
apresentava risco elevado de queda6, o que revela a maior vulnerabilidade desta população e reforça a
necessidade de ferramentas mais sensíveis e adaptadas ao contexto comunitário.
A inexistência de uma escala validada e adaptada à realidade dos CSP justifica o desenvolvimento de um novo
instrumento, baseado em dados reais da população idosa não institucionalizada. Este instrumento integra
fatores de risco identificados na literatura como: idade superior a 65 anos; sexo; número de quedas nos
últimos três meses; polimedicação14,15; alterações na acuidade visual ou auditiva14; falta de equilíbrio e outras
limitações físicas15 ou ainda fatores mais psicológicos como o medo de cair.16 A disponibilização de uma
escala simples, de fácil aplicação em cuidados de saúde primários poderá contribuir para a promoção de uma
vigilância ativa e para a implementação precoce de estratégias preventivas.
O objetivo deste estudo é desenvolver uma escala de fácil aplicação em cuidados de saúde primários que
permita avaliar o risco de queda em idosos, baseada na identificação de fatores clínicos, sociodemográficos e
psicossociais associados à ocorrência prévia de quedas.
Métodos
Foi desenvolvido um estudo metodológico em duas etapas complementares: numa primeira fase realizou-se
uma análise observacional e transversal dos dados, seguindo as recomendações STROBE, com o objetivo de
identificar os fatores associados à ocorrência de quedas em idosos, etapa necessária para fundamentar a
construção do instrumento; numa segunda fase, os coeficientes do modelo de regressão logística obtidos
foram utilizados para desenvolver uma proposta de uma escala de avaliação do risco de queda, através da
atribuição de pesos às variáveis significativas. A capacidade discriminativa da escala foi posteriormente
avaliada na mesma amostra, recorrendo à curva ROC.
A colheita de dados decorreu numa USF da região de Almada em 2019. A população incluiu todos os
indivíduos com idade igual ou superior a 65 anos, inscritos na USF em questão, tendo a amostra sido
selecionada por conveniência, através de amostragem não probabilística intencional. Foram incluídos todos os
idosos que, no período de realização do estudo, aceitaram participar voluntariamente num contexto de
consulta presencial ou domiciliária. Como critério de exclusão, foi considerada a incapacidade para assinar
consentimento informado.
No presente estudo, foram recolhidos 322 questionários válidos, correspondentes aos participantes que
cumpriram os critérios de inclusão e aceitaram participar na recolha de dados. Esta dimensão amostral foi
considerada adequada para a análise estatística realizada.17,18
Foram consideradas as seguintes variáveis: a) sociodemográfica (sexo, idade, escolaridade, tipo de residência,
agregado familiar, estado civil); b) Clínicas e Funcionais (histórico de quedas, comorbilidades, polimedicação,
medo de cair, equilíbrio, mobilidade, índice de Barthel) e Risco de queda (Escala de Morse para avaliação do
risco de queda.9,19
O questionário, de autopreenchimento, apresentou quatro partes: 1) caracterização sociodemográfica; 2)
variáveis clínicas e funcionais; 3) Índice de Barthel e 4) Escala de Morse. Considerando os participantes com
dificuldade na leitura e escrita, o instrumento foi aplicado com a ajuda de um familiar ou do próprio
profissional de saúde, que procedeu à leitura e ao registo das respostas fornecidas pelo idoso.
Com base nos fatores identificados e na sua relevância clínica, procedeu-se à construção de uma escala de
avaliação do risco de queda com atribuição de uma pontuação a cada variável, considerando o seu peso
relativo no desfecho.
Para a construção do modelo, as variáveis foram recodificadas em formato dicotómico, sendo que, no caso da
variável idade, esta foi recodificada em <80 vs ≥80 anos, ponto de corte sustentado pela literatura que
identifica risco significativamente aumentado de queda em idosos com 80 ou mais anos. É importante nesta
fase distinguir a variável dependente (‘queda nos últimos 3 meses’) da variável preditora ‘antecedentes de