Artigo de Revisão
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Pensar Enfermagem / v.30 n.01 / Jan-Dez 2026 / DOI: 10.71861/pensarenf.v30i1.515 / e00515
A transição para a parentalidade enquadra-se na teoria de médio alcance de Afaf Meleis, que descreve a transição
como uma passagem de um estado estável para outro igualmente estável, envolvendo um processo dinâmico
de mudança, adaptação e aquisição de novos conhecimentos e competências.8 Segundo esta teoria, a transição
inicia-se quando a mudança é antecipada e prolonga-se até que a pessoa desenvolva estabilidade e domínio do
novo papel.8,9 Este processo, pode incluir uma diversidade de eventos que podem influenciar a sua vivência e
a adaptação ao novo papel parental8, frequentemente descritos na literatura como facilitadores e barreiras. Entre
os indicadores de processo e de resultado de uma transição saudável destaca-se o desenvolvimento da
confiança.10 Neste sentido, a autoconfiança parental constitui um importante indicador da qualidade da
transição para a parentalidade, refletindo o grau de adaptação e de mestria alcançado pelos pais nos cuidados
ao recém-nascido.10 O desenvolvimento de estratégias que ajudem o casal a gerir de melhor forma as interações,
promove o aumento do nível de confiança.10 O aumento e desenvolvimento da confiança é progressivo,
proporcionando o domínio de novas competências, necessárias para a gestão de uma transição saudável.
A aquisição de competências parentais é necessária para a prestação de cuidados seguros ao recém-nascido,
sendo uma prioridade na transição da parentalidade.11 As competências parentais agrupam um conjunto de
conhecimentos, de habilidades e de atitudes, que facilitam e otimizam o desempenho do papel parental, com
mestria, garantindo assim o potencial máximo de crescimento e de desenvolvimento da criança.12 A capacitação
dos pais é fundamental para o processo, que impõe estratégias eficazes de promoção de saúde e um adequado
e individualizado plano de educação.13
Historicamente, o cuidado do filho e a gestão dos cuidados domésticos eram maioritariamente atribuídos à
mulher cuidadora, enquanto o homem apresentava um padrão de provedor económico.14 Tem-se observado
uma mudança de realidade, com o aumento da participação do pai nos serviços de saúde, e em especial no
nascimento.15 O pai tem vindo a assumir um maior destaque12 nos cuidados, sendo que esta motivação dos pais
para a parentalidade, pode ser verificada pelos dados de adesão do homem à partilha parental. Verificou-se uma
subida da percentagem de homens que partilham a licença parental, de 27,5% em 2015, para 45,7% em 2021.16
Na atualidade, as mulheres também investem na sua carreira profissional e incorporam essa atitude no seu
projeto de vida à parentalidade, em vez da dedicação exclusiva a esta transição.12 Observa-se a existência de
casais que vivem sozinhos, no lugar de famílias alargadas, afastados da sua rede social e influenciando a
reorganização familiar.12
A importância dada à mãe, neste processo, é superior. No entanto, a transição para a parentalidade é vivida por
ambos. A coparentalidade traduz o relacionamento das figuras parentais e ocorre quando mãe e pai tem
responsabilidade compartilhada, pela criação dos filhos com apoio e coordenação.17 O conceito não afirma por
si só o desenvolvimento igualitário do papel parental.17 No entanto, a participação solidária dos casais, que
surge no contexto atual, possibilita uma coparentalidade eficaz. A coparentalidade eficaz implica coordenação
mútua e trabalho de equipa eficaz, em contraposição aos efeitos negativos da coparentalidade competitiva e
conflituosa, que tem impacto direto na transição do papel parental e posteriormente no comportamento do
recém-nascido.18 Considera-se importante olhar e perceber o contributo do Enfermeiro Especialista em Saúde
Materna e Obstétrica (EEESMO) para com o cliente de cuidados, e considerá-lo uma tríade mãe-pai-bebé. Esta
perspetiva é sustentada nos Padrões de Qualidade dos Cuidados Especializados de Enfermagem de Saúde
Materna e Obstétrica, da Ordem dos Enfermeiros19, onde se refere que, no período pós-parto, emergem como
clientes de cuidados o recém-nascido e o homem-pai. Este pai deve ser considerado na sua individualidade,
com valores, crenças, desejos próprios, desde a gravidez até ao pós-parto. Assim, torna-se importante
considerar mãe e pai, com necessidades próprias, mas que se complementam num trabalho conjunto, com uma
parceria coparental inclusiva e de apoio no cuidado ao recém-nascido.18,19
As competências do EEESMO, em Portugal, centram-se em todo o período da transição para a parentalidade,
na gravidez, parto e pós-parto. Os cuidados no pós-parto permitem o cuidado da tríade, nos dias e semanas
após o nascimento, detetando complicações numa fase precoce, garantindo o sentimento de confiança em lidar
com a nova situação de vida, e com o seu recém-nascido.3
Optou-se por efetuar uma revisão scoping sobre as barreiras e facilitadores que contribuem para a autoconfiança
parental no cuidado ao recém-nascido, para analisar informações acerca de uma temática, de uma forma
abrangente20, providenciando conhecimento que, possa ajudar na tomada de decisão do EEESMO, no
diagnóstico de necessidades dos casais. Poucos são os estudos focados na continuidade de intervenções para o
desenvolvimento de confiança e dos cuidados aos recém-nascidos no período pós-natal.21 Só após o diagnóstico
se pode planear intervenções individualizadas, no desenvolvimento da autoconfiança parental e das suas
competências parentais, que permitam uma vivência positiva da parentalidade. “Cuidar a mulher inserida na
família e comunidade durante o período pós-natal”22, incorpora as competências específicas do EEESMO.
Deve-se conceber, planear, implementar e avaliar intervenções de promoção e apoio à adaptação no pós-parto,
identificar e monitorizar alterações aos processos de transição, promovendo a parentalidade responsável. A