Artigo de Revisão
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Pensar Enfermagem / v.30 n.01 / Jan-Dez 2026 / DOI: 10.71861/pensarenf.v30i1.482 / e00482
Práticas de Cuidado de Mulheres com Câncer nos Setores de
Cuidado conforme Kleinman: Revisão Integrativa
Care Practices used by Women with Cancer in Kleinman’s
Health Care Sectors: an Integrative Review
Andriele Ferreira Falcão1, Stefanie Griebeler Oliveira2, Fernanda Eisenhardt de Mello3, Karen Soares Porto4,
Ágata Fernandes Justin5*
1 Bacharel em Enfermagem. Hospital Bruno Born, RS, Brasil; orcid.org/0009-0002-8798-7786
2 Doutorado. Universidade Federal de Pelotas, RS, Brasil; orcid.org/0000-0002-8672-6907
3 Mestrado. Universidade Federal de Pelotas, RS, Brasil; orcid.org/0000-0003-3423-5599
4 Mestrado. Universidade Federal de Pelotas, RS, Brasil; orcid.org/0000-0002-5607-6982
5 Bacharel em Enfermagem. Universidade Federal de Pelotas, RS, Brasil; orcid.org/0009-0007-3814-6944
* Autor de correspondência: agata_justin@hotmail.com
Recebido: 13.02.2026
Revisto: 06.08.2026
Aceite: 20.10.2026
Editor: Luís Sousa
Como citar este artigo: Falcão AF, Oliveira SG, Mello FE, Porto KS, Justin AF. Práticas de Cuidado de Mulheres com Câncer nos Setores de Cuidado
conforme Kleinman: Revisão Integrativa. Pensar Enf [Internet]. 2026; 30 (1): e00482. Available from: https://doi.org/10.71861/pensarenf.v30i1.482.
Resumo
Objetivo
Compreender, a partir da literatura científica, as práticas de cuidado utilizadas por mulheres com câncer nos
diferentes setores de cuidado à saúde, conforme o referencial teórico de Arthur Kleinman.
Método
Revisão integrativa realizada nas bases SciELO, LILACS, Scopus e CINAHL, com estratégias de busca
combinando termos relacionados à saúde, mulheres, câncer, medicina tradicional e medicina popular por meio
dos operadores booleanos AND e OR. Foram identificados 5.072 registros e, após seleção e avaliação da
qualidade da publicação considerando os itens do COREQ, 14 artigos compuseram a amostra final. Os dados
foram analisados por análise de conteúdo dirigida, fundamentada em Arthur Kleinman.
Resultados
Os estudos evidenciaram que mulheres com câncer mobilizam práticas de cuidado nos setores popular, folk e
profissional, com predominância do setor profissional, especialmente por meio de tratamentos oncológicos e
da atuação da fisioterapia. No setor popular, destacaram-se autocuidado, espiritualidade, apoio familiar,
alimentação e uso de plantas medicinais. No setor folk, foram identificadas práticas como garrafadas, chás e
orientações de curandeiros ou rezadores. As intersecções entre os setores revelaram que esses cuidados podem
ocorrer de forma concomitante, complementar ou processual ao longo do itinerário terapêutico.
Conclusão
Evidenciou-se que mulheres com câncer mobilizam práticas de cuidado nos setores profissional, popular e folk,
com predomínio do cuidado biomédico, mas também com presença de práticas espirituais, familiares,
tradicionais e de autocuidado. Os achados reforçam a necessidade de uma enfermagem integral, humanizada e
culturalmente sensível, capaz de reconhecer a coexistência e as intersecções entre diferentes modos de cuidado
ao longo da trajetória de adoecimento e tratamento.
Palavras-chave
Medicina Tradicional; Neoplasias; Mulheres; Terapias Complementares; Setor Informal.
Artigo de Revisão
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Pensar Enfermagem / v.30 n.01 / Jan-Dez 2026 / DOI: 10.71861/pensarenf.v30i1.482 / e00482
Abstract
Objective
To understand, based on the scientific literature, the care practices used by women with cancer across different
health care sectors, according to Arthur Kleinman’s theoretical framework.
Method
An integrative review was conducted in the SciELO, LILACS, Scopus, and CINAHL databases, using search
strategies that combined terms related to health, women, cancer, traditional medicine, and popular medicine
through the Boolean operators AND and OR. A total of 5,072 records were identified and, after the selection
process and assessment of reporting completeness using the COREQ checklist, 14 articles were included in the
final sample. Data were analyzed using directed content analysis, based on Arthur Kleinman’s theoretical
framework.
Results
The studies showed that women with cancer mobilize care practices within the popular, folk, and professional
sectors, with a predominance of the professional sector, especially through oncological treatments and
physiotherapy care. In the popular sector, self-care, spirituality, family support, diet, and the use of medicinal
plants stood out. In the folk sector, practices such as herbal mixtures, teas, and guidance from healers or prayer
healers were identified. The intersections between the sectors revealed that these forms of care may occur
concomitantly, complementarily, or progressively throughout the therapeutic itinerary.
Conclusion
It was evidenced that women with cancer mobilize care practices within the professional, popular, and folk
sectors, with a predominance of biomedical care, but also with the presence of spiritual, family-based,
traditional, and self-care practices. The findings reinforce the need for comprehensive, humanized, and
culturally sensitive nursing care, capable of recognizing the coexistence and intersections between different
modes of care throughout the trajectory of illness and treatment.
Keywords
Traditional Medicine; Neoplasms; Women; Complementary Therapies; Informal Sector.
Introdução
O câncer pode ser compreendido como uma doença caracterizada pelo crescimento desordenado de células
alteradas, que evoluem ao longo do tempo por meio de processos de seleção natural.1 Dados de um estudo com
abordagem feminista evidenciam que o câncer representa entre as três principais causas de morte prematura
em mulheres na maioria dos países do mundo.2 Para 2040, as projeções dos tipos de câncer mais incidentes
entre mulheres, ao considerar apenas as mudanças demográficas, mantêm o padrão observado em 2020: câncer
de mama (364.000), pulmão (114.000), útero (99.000) e melanoma (92.000). Em seguida, o câncer colorretal
(72.000) ocupa a quinta posição em frequência.3
Dados da Organização Pan-Americana da Saúde indicam o câncer de mama como a principal causa de
incidência e mortalidade feminina, seguido pelos cânceres de pulmão, colorretal, colo uterino e pâncreas,
evidenciando a magnitude desse agravo para os sistemas de saúde da região.4 Para além das repercussões clínicas
e fisiológicas, o adoecimento oncológico produz sofrimento emocional, alterações corporais, impactos
familiares, inseguranças espirituais e desafios cotidianos que atravessam a experiência da doença.5
Nessa direção, compreender o cuidado em saúde exclusivamente a partir do modelo biomédico mostra-se
insuficiente. A vivência do câncer frequentemente conduz as mulheres à busca de múltiplos recursos
terapêuticos, formais e informais, acionados simultaneamente ao longo do itinerário terapêutico. Tal
movimento evidencia que o enfrentamento da doença não ocorre apenas no interior dos serviços de saúde, mas
também nas relações familiares, religiosas, culturais e comunitárias.6
Para compreender essa pluralidade de práticas, adota-se como referencial teórico o sistema de cuidado à saúde
proposto por Arthur Kleinman, segundo o qual o cuidado é organizado em três setores interdependentes: o
setor popular, relacionado ao autocuidado, ao apoio familiar e aos saberes cotidianos; o setor folk, vinculado a
especialistas não formalmente legitimados, como benzedeiros, curandeiros e rezadores; e o setor profissional,
correspondente ao modelo biomédico institucionalizado.7 Essa perspectiva permite analisar o pluralismo
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terapêutico presente no adoecimento, bem como as negociações culturais que permeiam as escolhas e práticas
de cuidado adotadas pelas mulheres.
As práticas espirituais constituem importante componente dos setores de cuidado em saúde, sobretudo no
adoecimento crônico. Estudo com pessoas com câncer na África Subsaariana demonstrou que oração,
aconselhamento e rituais culturalmente contextualizados contribuem para redução da ansiedade, fortalecimento
da esperança e melhora da qualidade de vida, sendo reconhecidos como parte de uma assistência oncológica
integral.8
Em consonância com esses achados, revisão acerca da espiritualidade como estratégia de enfrentamento entre
mulheres com câncer de mama demonstrou que religiosidade e espiritualidade perpassam toda a experiência do
adoecimento, promovendo conforto, atribuição de sentidos e resiliência. Manifestadas sobretudo por meio da
oração e da fé, tais práticas evidenciam que o itinerário terapêutico envolve demandas que extrapolam a cura
biológica, exigindo da enfermagem uma abordagem sensível às dimensões emocionais, familiares e espirituais
do sofrimento.9
Estudos recentes demonstram que práticas espirituais e redes de apoio assumem papel relevante no
enfrentamento do câncer, contribuindo para a redução da ansiedade, fortalecimento da esperança e
ressignificação do sofrimento.8-10 A religiosidade e a espiritualidade também têm sido descritas como recursos
que auxiliam mulheres com câncer a atribuir sentido ao adoecimento e a sustentar estratégias emocionais de
enfrentamento.8,10 Paralelamente, observa-se a utilização de plantas medicinais, práticas corporais e terapias
complementares, revelando que o cuidado em saúde se constitui para além da terapêutica medicamentosa.11-12
No âmbito institucional, as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS)13-15, incorporadas às
políticas públicas brasileiras, também vêm sendo reconhecidas como recursos auxiliares no manejo da dor, da
ansiedade, da insônia e de outros desconfortos associados ao tratamento oncológico.11-12 Todavia, para além
das práticas oficialmente legitimadas, persistem saberes populares e tradicionais que continuam atravessando
os percursos terapêuticos femininos, embora ainda sejam pouco explorados na literatura científica.16-17
Identifica-se, nesse sentido, uma lacuna na produção científica quanto à compreensão ampliada das práticas de
cuidado mobilizadas por mulheres com câncer, especialmente quando analisadas sob a ótica dos diferentes
setores de cuidado à saúde e de suas interfaces socioculturais. Compreender tais práticas pode contribuir para
o fortalecimento de uma assistência de enfermagem culturalmente sensível, integral e orientada para o
reconhecimento da pluralidade terapêutica presente na experiência do adoecimento oncológico feminino.
Diante disso, objetivou-se Compreender, a partir da literatura científica, as práticas de cuidado utilizadas por
mulheres com câncer nos diferentes setores de cuidado à saúde, conforme o referencial teórico de Arthur
Kleinman.
Método
Tipo de estudo
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, método que possibilita a síntese e a análise ampliada de
conhecimentos produzidos sobre determinado fenômeno, reunindo resultados de pesquisas com diferentes
abordagens e contribuindo para a compreensão de lacunas e tendências da produção científica.18-19 Para a
condução deste estudo foram seguidas as seis etapas metodológicas preconizadas para revisões integrativas:
elaboração da questão de pesquisa, definição dos critérios de inclusão e exclusão, busca na literatura, extração
dos dados, análise crítica e síntese do conhecimento.18
A questão norteadora foi elaborada com base na estratégia PICo, considerada adequada para investigações que
envolvem fenômenos qualitativos,20 sendo definida a partir de: P (Population) – mulheres com câncer; I
(Interest) – práticas de cuidado; e Co (Context) – serviços de saúde em todos os níveis (atenção primária,
ambulatorial e hospitalar). Assim, estabeleceu-se a seguinte questão de pesquisa: quais práticas de cuidado são
utilizadas por mulheres com câncer que fazem tratamento em serviços de saúde descritos na literatura?
Critérios de inclusão e exclusão
Foram incluídos artigos originais de abordagem qualitativa, publicados nos idiomas português, espanhol e
inglês, sem delimitação temporal, que abordassem mulheres com câncer e descrevessem suas práticas de
cuidado, as quais poderiam ser relacionadas aos setores popular, folk ou profissional. Entre práticas citadas pelas
participantes dos estudos, poderiam estar as denominadas práticas populares, medicina tradicional, terapias
complementares, autocuidado, espiritualidade ou cuidados profissionais.
Optou-se pela inclusão de estudos qualitativos por compreender que esse delineamento possibilita maior
aproximação com as experiências, significados e narrativas das mulheres sobre o adoecimento e sobre as
práticas de cuidado mobilizadas em seu itinerário terapêutico.
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Foram excluídos artigos de revisão, estudos quantitativos, editoriais, dissertações, teses, anais de congresso,
estudos documentais e pesquisas cujos participantes não fossem mulheres em tratamento ou vivência
oncológica.
Fontes de informação e base de dados
A busca bibliográfica foi realizada nas bases Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde
(LILACS), Scientific Electronic Library Online (SciELO), Scopus e Cumulative Index to Nursing and Allied
Health Literature (CINAHL). Optou-se por essas bases por compreender que concentram investigações
qualitativas relacionadas à experiência do adoecimento, práticas culturais de cuidado e itinerários terapêuticos,
aspectos centrais ao objeto deste estudo.
Estratégias de busca
As buscas foram realizadas em junho de 2026 pelas primeira, segunda, terceira e quinta autoras do estudo. A
estratégia de busca resultou na identificação de 5.072 registros nas bases de dados, sendo que 387 eram
duplicados, totalizando para análise de títulos e resumos: 4685. Os descritores e palavras-chave utilizados foram
saúde, mulheres, câncer, medicina tradicional e medicina popular. Foram utilizados os operadores booleanos
AND e OR. Os descritores foram testados e geraram os seguintes resultados estratificados no Quadro 1.
Quadro 1. Estratégias de busca e resultados obtidos
Fonte
Estratégia de busca
Resultado
SciELO
(saúde) AND (mulheres) AND (câncer) AND (medicina tradicional) OR (medicina popular)
1.360
LILACS
(saúde) AND (mulheres) AND (câncer) AND (medicina tradicional) OR (medicina popular)
3.559
CINAHL
health AND women AND cancer AND traditional medicine OR folk medicine
113
Scopus
( KEY ( health ) AND KEY ( women ) AND KEY ( cancer ) AND KEY ( traditional
medicine) OR KEY ( folk medicine ) )
40
Total (bruto)
5.072
Duplicados
387
Total para
análise
4.685
Fonte: Elaborado pelas autoras, 2026.
Destaca-se que foram testadas diferentes estratégias de busca com descritores específicos, não sendo obtidos
resultados satisfatórios em alguns cruzamentos. Um exemplo foi a adição do descritor Pesquisa Qualitativa e
não se obteve nenhum resultado. Diante disso, optou-se pela utilização de descritores mais amplos e termos
alternativos, como saúde, mulheres, câncer, medicina tradicional e medicina popular, a fim de ampliar a
sensibilidade da busca e possibilitar maior recuperação de estudos potencialmente elegíveis. O booleano OR
foi a possibilidade pela ampliação dos resultados, uma vez que rastrearia ou a menção de medicina popular ou
a medicina tradicional.
Processo de seleção
Inicialmente, todos os registros recuperados nas bases de dados foram submetidos à leitura dos títulos e
resumos, com a finalidade de verificar aderência ao objeto de estudo e aos critérios previamente estabelecidos.
Destaca-se que muitos títulos foram excluídos nesta fase, uma vez que se tratava de estudos quantitativos e/ou
sobre prevenção de câncer de mama (mamografia, autoexame, exame clínico de mamas) ou prevenção de câncer
de colo de útero (conhecimento, adesão, resultados etc.).
Os estudos potencialmente elegíveis, sendo um total de 55, seguiram para leitura na íntegra, igualmente realizada
por duas revisoras de forma independente. As discordâncias quanto à inclusão ou exclusão foram discutidas
entre as avaliadoras e, quando necessário, submetidas à apreciação de uma terceira revisora, até obtenção de
consenso.
Desses, 24 seguiram para a etapa de avaliação da qualidade do relato. Os outros 31 foram excluídos por não
mencionarem práticas de cuidado, remetendo-se mais a sentimentos e sensações da vivência com algum tipo
de câncer, sem menção a práticas de cuidado acessadas durante seu itinerário terapêutico.
Artigo de Revisão
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Pensar Enfermagem / v.30 n.01 / Jan-Dez 2026 / DOI: 10.71861/pensarenf.v30i1.482 / e00482
Figura 1. O fluxograma adaptado no modelo PRISMA-ScR21 ilustra as etapas de identificação, seleção e
inclusão.
Avaliação de qualidade das publicações
A avaliação de qualidade dos artigos, ocorreu considerando os itens do Consolidated Criteria for Reporting
Qualitative Research (COREQ).22 Tal escolha ocorreu por ser um checklist da Equator, que orienta para
informações importantes e fundamentais na escrita dos artigos, especialmente no método de artigos de pesquisa
qualitativa - o que garante a possibilidade de reprodutibilidade - conforme o quadro 2. A validação brasileira23
deste instrumento mostrou que ocorreu de forma significativa a qualificação dos artigos de pesquisa qualitativas.
14 publicações obtiveram pontuação mínima de 70%, as quais foram analisadas e tiveram seus dados extraídos.
Registros identificados:
SciELO (n = 1360)
LILACS (n = 3559)
CINAHL (n = 113)
Scopus (n = 40)
Análise de título e resumo
(n = 4685)
Artigos lidos na íntegra
(n = 55)
Artigos excluídos por não
mencionarem práticas de cuidado,
remetendo-se mais a sentimentos e
sensações da vivência com algum
tipo de câncer, sem menção a
práticas de cuidado acessadas
durante seu itinerário terapêutico
(n = 31)
Elegíveis
(n = 24)
Incluídos na revisão
(n = 14)
Seleção
Incluídos
10 artigos foram excluídos por não
atingirem 70% dos itens do
COREQ
Registros removidos antes da
seleção:
Duplicados (n = 387)
Identificação
Artigo de Revisão
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Pensar Enfermagem / v.30 n.01 / Jan-Dez 2026 / DOI: 10.71861/pensarenf.v30i1.482 / e00482
Quadro 2. Avaliação da qualidade dos artigos segundo COREQ.
Almeida et al, 2015
Gazola et al, 2017
Macedo et al, 2018
Almeida et al, 2022
Salimena et al, 2012
Rosa e Radünz, 2013
Barradas et al, 2022
Duque et al, 2023
Pereira et al, 2024
Oliveira et al, 2024
Brilhante et al, 2025
Ramírez-Perdomo, 2018
Cunha et al, 2019
Castañeda, Buriticá, 2020
Soares et al, 2019
Maree et al, 2014
Mensah et al, 2024
Jaman-Mewes et al, 2014
Ferreira et al, 2015
Soares et al, 2016
Machado et al, 2017
Mairink et al 2020
Souza et al, 2021
Salazar et al, 2025
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*Domínio 1) Equipe de pesquisa e reflexividade: Q1. Há informação de qual autor conduziu a coleta de dados?
Q2. Há informação de quais eram as credenciais do pesquisador? Q3. Há informação de qual era a ocupação
dos autores na época do estudo? Q.4 Há informação do sexo do autor? Q.5 Há informação da experiência ou
treinamento do pesquisador? Q.6 Há informação se foi estabelecido algum tipo de relacionamento antes do
início do estudo? Q.7 Há informação sobre o que os participantes sabiam sobre o pesquisador? Q.8 Há
informação sobre quais características foram relatadas sobre o pesquisador/entrevistador? Domínio 2)
Conceito do estudo: Q.9 Há informação de qual orientação metodológica para sustentar o estudo? Q.10 Há
informação de como os participantes foram selecionados (amostragem)? Q.11 Há informação de como os
participantes foram abordados? Q.12 Há informação sobre quantos participantes foram incluídos no estudo?
Q.13 Há informação sobre quantas pessoas se recusaram a participar ou desistiram, e quais os motivos? Q.14
Há informação sobre o local onde os dados foram coletados? Q.15 Há informação se havia mais alguém
presente, além dos participantes, durante a coleta de dados? Q.16 Há informação sobre as características
sociodemográficas ou data de coleta da amostra? Q.17 Há informação se os autores forneceram perguntas,
instruções ou guias (se sim foram testadas por teste piloto)? Q.18 Há informação sobre a realização de
entrevistas repetidas? Q.19 Há informação sobre gravação de áudio ou visual? Q.20 Há informação se as notas
de campo foram feitas durante e/ou após o encontro? Q.21 Há informação sobre a duração do encontro? Q.22
Há informação se a saturação dos dados foi discutida? Q. 23 Há informação se as transcrições foram devolvidas
aos participantes para comentários ou correção? Domínio 3) Análise e resultados: Q. 24 Há informação de
quantos foram os codificadores de dados? Q.25 Há informação se os autores forneceram uma descrição da
árvore de codificação? Q.26 Há informação se os temas foram identificados antecipadamente ou derivados dos
dados? Q.27 Há informação de qual software, se aplicável, foi utilizado para gerenciar os dados? Q.28 Há
informação se os participantes forneceram feedback sobre os resultados? Q.29 As citações dos participantes
foram apresentadas para ilustrar os temas/achados? Cada citação está identificada por código? Q.30 Há
informação se houve consistência entre os dados apresentados e os resultados? Q.31 Há informação se os
principais temas foram claramente apresentados nos resultados? Q.32 Há descrição dos diversos casos ou
discussão dos temas secundários?
** S=sim; N= não; N/A=não se aplica.
Fonte: elaborado pelas autoras, 2026.
Procedimento de extração dos dados
Para a extração de dados, foi utilizado um quadro para organizar as informações coletadas dos artigos, quanto
ao ano da publicação, país, revista, área, raça, idade de mulheres com câncer, tipo de câncer, práticas de cuidado
referidas/mencionadas pelas mulheres.
Estratégia de análise e síntese da informação
Para a análise dos dados extraídos a partir dos artigos, utilizou-se a análise de conteúdo dirigida. Essa abordagem
tem como objetivo principal validar ou expandir um quadro teórico ou uma teoria previamente existente. Além
disso, pode gerar previsões acerca de variáveis de interesse ou das relações entre essas variáveis, contribuindo
para a definição inicial do esquema de codificação e para a identificação das relações entre os códigos, sendo
essa aplicação reconhecida como categorização dedutiva.24
Os conceitos aplicados às práticas de cuidado identificadas corresponderam aos setores de cuidado à saúde
propostos por Arthur Kleinman: setor popular, setor folk e setor profissional.7 As etapas analíticas seguiram
com a leitura da coluna referente às práticas de cuidado presente no quadro de extração dos dados. Quando
havia, por exemplo, a menção ao uso de chás, observava-se o contexto dessa utilização, verificando se a
orientação de uso ou o modo de preparo originava-se no ambiente familiar — enquadrando-se no setor popular
— ou se era orientado por curandeiro ou especialista tradicional — enquadrando-se no setor folk. Ainda, foram
consideradas as intersecções entre os setores simultaneamente em momento referido pelas participantes dos
estudos e suas adesões processuais aos setores, conforme sua vivência de tratamento de câncer.
Resultados
A caracterização dos estudos incluídos nesta revisão está apresentada no Quadro 3. Observa-se que a temática
foi investigada em diferentes períodos e contextos nacionais, com predomínio de estudos desenvolvidos no
Brasil. Também foram identificadas produções realizadas em outros países, como Colômbia, Chile, Zâmbia,
Gana e México.
Artigo de Revisão
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Pensar Enfermagem / v.30 n.01 / Jan-Dez 2026 / DOI: 10.71861/pensarenf.v30i1.482 / e00482
Quadro 3. Caracterização dos estudos incluídos na revisão
Autor/Ano
Revista
País do estudo
Área
Raça das
mulheres
Idade das
mulheres
Gazola et al.,
201725
Revista de Terapia
Ocupacional da
Universidade de
São Paulo
Brasil
Fisioterapia
Não informado
18 a 35 anos
Oliveira et al.,
202426
Revista Mineira de
Enfermagem
Brasil
Enfermagem
7 pardas, 6 brancas
e 2 pretas
Média de 50,9 anos
Brilhante et al.,
202527
Saúde e Sociedade
Brasil
Multiprofissional
Não informado
24 a 54 anos
Cunha et al., 201928
Escola Anna Nery
Revista de
Enfermagem
Brasil
Enfermagem
Não informado
43 a 65 anos
Castañeda e
Buriticá, 202029
Investigaciones
Andina
Colômbia
Enfermagem
Não informado
Não informado
Soares et al., 201930
Avances en
Enfermería
Brasil
Enfermagem
3 pardas, 1 preta e
1 branca
25 a 73 anos
Maree, Cur e Kaila,
201431
International
Journal of
Gynecological
Cancer
Zâmbia
Enfermagem
Não informado
34 a 75 anos
Mensah et al.,
202432
BMC
Complementary
Medicine and
Therapies
Gana
Enfermagem
Não informado
34 a 77 anos
Jaman-Mewes e
Rivera, 201433
Aquichan
Chile
Enfermagem
Não informado
Média de 56,2 anos
Ferreira, Salazar e
Peruchi, 201534
Psicologia
Hospitalar
Brasil
Psicologia
Não informado
39 a 64 anos
Machado, Soares e
Oliveira, 201735
Physis: Revista de
Saúde Coletiva
Brasil
Enfermagem
Predomínio de
mulheres pardas
30 a 70 anos
Mairink et al.,
202036
Escola Anna Nery
Revista de
Enfermagem
Brasil
Enfermagem
Não informado
18 a 40 anos
Souza et al., 202137
Aquichan
Brasil
Enfermagem
Não informado
43 a 72 anos
Salazar et al.,
202538
Revista de
Investigación en
Salud
Brasil, Colômbia e
México
Enfermagem
Não informado
41 a 70 anos
Fonte: Elaborado no presente estudo.
A seguir serão apresentados os três setores de cuidado à saúde utilizados por mulheres com câncer: popular,
folk e profissional.
Setor Popular
Entre as práticas de cuidado referidas pelas participantes dos estudos, oriundas do setor popular, as quais
circulam na família, amigos, vizinhos, comunidade, estavam: alimentação com exclusão de carnes e inclusão
de frutas e verduras que poderiam melhorar os sintomas; preparo de sucos desintoxicantes; uso de chás
ensinados pela família ou pelos amigos; práticas no banho como despedida de parte do corpo que seria
removida cirurgicamente ou evitação de espelho no pós-cirúrgico; práticas de fé, oração, leitura, diálogo com o
divino, idas às igrejas; cuidado com plantas ou contato com a natureza.
Artigo de Revisão
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Pensar Enfermagem / v.30 n.01 / Jan-Dez 2026 / DOI: 10.71861/pensarenf.v30i1.482 / e00482
Estudo28 identificou que as práticas em relação aos alimentos dependiam de seleção de certos tipos de
alimentos, os quais apesar de não terem sido escolhidos diretamente para o alívio dos sintomas da
quimioterapia, eram descritos pelas mulheres como forma de prevenir, amenizar ou diminuir efeitos
indesejáveis e reações adversas durante a quimioterapia. Entre os alimentos estavam sucos verdes, vistos como
forma de melhorar o sistema imunológico. Em sua composição, poderiam estar ora-pro-nóbis, hortelã, salsa,
limão bananas, maçãs, mamão, gengibre etc. Também foi mencionado o chá mate para hidratação oral. Sucos
de maracujás foram utilizados para tranquilizar a mente e manter o corpo mais relaxado. Outro estudo29
destacou a aversão a carne por uma das participantes e seleção de vegetais e frutas nas refeições diárias.
Um dos estudos25 evidenciou que na prática de banho, uma de suas participantes fez um certo ritual de
despedida de sua mama, antes do procedimento cirúrgico, chorando muito e buscando imaginar o que seria o
dia seguinte. Outro27, apresentou uma prática pós-cirurgia, no qual a participante chorava enquanto se banhava
e evitava olhar-se no espelho.
Em relação às práticas religiosas ou espirituais, estudo26 demonstrou que as mulheres relatavam que a
espiritualidade é como uma força que todos possuem, a qual cada uma precisa descobrir em si mesmas,
independente da religião. A fé foi entendida como uma elevação do espírito e enfrentamento para deixar o
processo mais leve. O diálogo com o divino é possível a partir da perspectiva das mulheres, não se restringindo
ao espaço da igreja, mas em qualquer lugar, estando ligado, conforme estudo29 com a oração, a leitura da Bíblia
e a reflexão espiritual. Ainda, destacou-se que as mulheres, especialmente as cristãs, encontraram um sentido
no adoecimento de que a espiritualidade poderia ser fortalecida, e que isso poderia ajudar no tratamento. Outro
aspecto relevante em relação às práticas de fé, encontrado em estudo35, foi a de ver Deus como um médico
vivo, e atribuir ao avanço da medicina convencional, os desígnios de Deus. A esperança foi destacada em
estudo37, bem como a confiança nos médicos, por se acreditar que há algo entre a Terra e o Céu.
Por fim, acerca do cuidado com plantas e o contato com a natureza identificada em estudo28, segundo as
participantes, sua prática resultava em redução da fadiga mental e, a oportunidade de se deslocarem para um
ambiente externo ao limite de suas casas, onde aconteciam as rotinas e o convívio diário. Nesse sentido, o verde
representa um descanso.
Setor
Folk
Entre as práticas desenvolvidas no setor folk, oriundas de orientações ou intervenções de curandeiros
tradicionais, especialistas no tema/práticas, estavam: alimentação que poderia contribuir para a recuperação,
como amendoim, vegetais, peixe; remoção de sinais do câncer por meio de consultas; acesso a consulta de
medicina tradicional com promessa de cura de câncer através de divulgação em rádios; busca de chás junto ao
curandeiro; mistura de ervas com alimentos orientadas pelo curandeiro; naturopatia, a partir de alimentos
naturais e exercícios físicos; aplicação tópica de pomadas na pele, água benta e óleo de unção; e, cirurgia
espiritual.
Estudo29 demonstrou que as mulheres atribuem grande importância aos tratamentos tradicionais e às
recomendações populares sobre os alimentos que podem ser consumidos por pessoas com câncer e que ajudam
na recuperação. Além disso, também reconhecem o gel da planta babosa (aloe vera) para o tratamento de
queimaduras para proteger a pele da radioterapia. Também foi mencionada em estudo31, a utilização de ervas
por mãe e filho. Outro aspecto encontrado foi a consulta com curandeiros tradicionais para retirada de sinais
de câncer do colo do útero.
A mídia foi encontrada em estudo32 como sendo meio de propagação de informação sobre a medicina
tradicional e o seu uso no tratamento do câncer de mama. Na rádio, curandeiros e usuários da medicina
tradicional afirmavam medicamentos eficazes, herbalistas e usuários participavam do programa fornecendo
depoimentos, desse modo os ouvintes tomavam conhecimento sobre medicamentos à base de ervas.
As misturas de ervas com alimentos naturais e saudáveis constituem modalidades de tratamento, e os herbalistas
orientam que as ervas devem ser adicionadas as refeições diárias ou fervidas em uma mistura que pudesse ser
bebida, sendo esse o remédio. Outro método de utilização de ervas, foi a aplicação de medicamentos e pomadas
na pele, fornecidos pelos praticantes de medicina tradicional, os quais instruem sobre a preparação e aplicação,
como por exemplo, creme para aplicar na área afetada do seio ou toalha embebida na fervura de ervas para
massagem no seio.32
O uso de métodos naturopáticos também foi visto em estudo32, no qual se indicava dieta saudável, exercícios
físicos e repouso suficiente como forma de tratamento para diminuição de nódulo da mama.
Foi identificada a busca por atendimento em curandeiro espiritual, o qual ofertou água benta para beber e óleo
de unção para massagear o peito.32 Em outro estudo37, a paciente buscou a realização de cirurgia espiritual antes
de realizar a cirurgia física, reforçando seu sentimento de boa saúde antes da cirurgia física.
Artigo de Revisão
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Pensar Enfermagem / v.30 n.01 / Jan-Dez 2026 / DOI: 10.71861/pensarenf.v30i1.482 / e00482
Setor profissional
Entre as práticas de cuidado oriundas do setor profissional, estavam os procedimentos de quimioterapia,
braquiterapia, radioterapia, consultas com médicos e fisioterapeutas. A quimioterapia era desencadeadora de
observações e ressignificação do corpo físico, mental, emocional acerca dos tratamentos, tais como
reorganizadora de seu dia a dia ou desorganizadora27, queda de cabelo29,32,36,38 ou com produção de sintomas
como náuseas, fraqueza, dispareunia, coceiras nos braços, ausência de sede27,36 e, sensação de dor nos ossos.38
A braquiterapia ocasionava descamação úmida e dolorosa31, especialmente pelo antisséptico utilizado antes do
procedimento. A radioterapia29 era a promotora de desgaste de unhas, perda de dentes, anemia, perda de peso,
queimaduras, exacerbação de dor e sonolência.
As consultas médicas auxiliavam desde a fase de investigação do câncer, bem como em possibilidades de
controle de sintomas, como dor.36 As consultas com a fisioterapeuta27, se davam especialmente na área da
sexualidade para massagens, laserterapia e autoconhecimento de órgãos internos.
Em estudo24 foi encontrado sobre a falta de desejo sexual com seu parceiro durante a realização do tratamento
quimioterápico. Tal queixa, em outro estudo27, foi minimizada com o tratamento da dispareunia, a partir de
fisioterapia e laser vaginal, referindo importante melhora da sexualidade. Ademais, afirmam que a fisioterapia
promove o autoconhecimento das áreas pélvicas.
Intersecções nos setores popular,
folk
e profissional
A intersecção entre os setores popular e folk ocorreu pela motivação de familiares ou amigos já usuários da
medicina tradicional, que enfatizavam sua eficácia. Estudo32 demonstra que o círculo familiar constitui uma das
principais fontes de informação e confiança sobre medicina tradicional no tratamento do câncer.
Entre as práticas que emergiram na fala das mulheres nos estudos, que fazem intersecção entre o setor
profissional e o popular, estavam: diálogos com o divino — tanto no uso de medicamentos como em cirurgias;
uso de instrumentos religiosos durante o procedimento biomédico; a crença de que o tratamento seria de 50%
convencional e 50% do próprio estado espírito; associação de algo familiar ao recebimento de quimioterapia; e
a ruptura com alguma parte do corpo vista como culturalmente aceita na sociedade em função de um tratamento
convencional, tal como a mastectomia.
Estudo26 identifica que a fé está presente durante o tratamento quimioterápico, pacientes utilizam práticas como
realizar o procedimento com o terço na mão e realizam orações com conversas com Jesus para se tranquilizar.
Também foi visto que, durante procedimentos cirúrgicos, pacientes imaginam que o sangue de Cristo estava
presente no momento, sendo os médicos somente o instrumento de Jesus. Além disso, resultados apontam que
o pensamento de pacientes que buscam a fé volta-se para que, se a doença vencer, eles vão para um lugar
melhor. Em outro estudo28, a fé é apontada como a confiança de poder passar pelo processo do tratamento,
pois apoiam-se em escutar uma música, ler um evangelho, para tranquilizar. Neste mesmo sentido, estudo34
refere que a doutrina espírita faz com que os pacientes tenham fé, pois acreditam que metade do tratamento é
a medicina e a outra metade é o apoio espiritual.
Estudo27 demonstra que o cabelo faz parte do ser feminino, é o charme da mulher e, ao realizar a quimioterapia,
a mulher perde cabelo, sobrancelha, cílios, e fica totalmente desfigurada, não se identificando mais como esposa
e mulher, apenas como paciente realizando tratamento.
As práticas de cuidados identificadas na interseção entre os setores folk e profissional demonstraram os
movimentos das mulheres com câncer, motivadas pelas divulgações em rádios sobre medicina tradicional, bem
como pela consideração financeira, acesso ao tratamento, modalidade não invasiva e ação do recurso
terapêutico, uma vez que a medicina tradicional era mais acessível, menos custosa e com minimização de efeitos
adversos. Por outro lado, a medicina convencional apresentava-se mais morosa no tratamento, sendo necessária
a apresentação de exames para definição de diagnóstico. Nesse sentido, a intersecção pode ocorrer de forma
concomitante ou processual, ou seja, com início de tratamento tradicional para depois acessar o convencional,
ou ainda, com a articulação de ambos para uso complementar, ou com a saída da medicina convencional em
detrimento de efeitos colaterais para a medicina tradicional, a qual era entendida como menos agressiva. A
desistência da medicina tradicional poderia ocorrer por duas razões: a orientação dos profissionais de saúde
para descontinuação ou a percepção de não melhora.
Estudo32 demonstra que pacientes optam pela medicina tradicional inicialmente pelo menor custo e pela
percepção de maior eficácia sobre a causa da doença — como a diminuição do nódulo no seio, dispensando a
mastectomia — além de envolver práticas menos invasivas e mais rápidas, já que os centros tradicionais não
exigem as baterias de exames laboratoriais e de imagem que retardam o atendimento hospitalar. O mesmo
estudo32 relata que alguns profissionais de saúde ortodoxos desencorajavam o uso da medicina tradicional por
temerem interferência na eficácia do tratamento hospitalar, e que uma paciente relatou ineficácia do creme de
ervas utilizado.
Artigo de Revisão
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Pensar Enfermagem / v.30 n.01 / Jan-Dez 2026 / DOI: 10.71861/pensarenf.v30i1.482 / e00482
Foram identificadas práticas de cuidado mobilizadas nos três setores, sendo o popular a partir da família nuclear
e religiosidade, o folk, a partir de consultas com rezadores ou curandeiros e prescrição de garrafadas e chás, e o
setor profissional para diagnóstico e tratamento convencional. Tais práticas poderiam ser concomitantes,
complementares ou processuais. Em estudo30 foi visto que existe uma pluralidade de sistemas de cuidados em
torno do paciente, não utilizados antagonicamente, mas sim concomitante e complementar. Ou seja, os
pacientes fazem uso de chás, são apegados a Deus, possuem fé, utilizam ambulatório para realizar biópsia, posto
de saúde, hospital, fazem uso de garrafada e consultam com rezadores.
Para melhor visualização e organização das informações acerca dos setores de cuidado à saúde acessados por
mulheres em tratamento de câncer, apresenta-se a (Figura 2.) Evidencia-se a centralidade biomédica, porém
atravessada por demandas de acolhimento e humanização.
Figura 2. Mapa mental das práticas de cuidado utilizadas por mulheres com câncer segundo os setores de
cuidado à saúde.
Fonte: Elaborado no presente estudo.
Discussão
A presente revisão integrativa evidenciou que as práticas de cuidado utilizadas por mulheres com câncer não se
restringem ao setor profissional, mas se distribuem entre diferentes formas de enfrentamento do adoecimento,
revelando a coexistência dos setores popular, folk e profissional.7 Ainda que o setor profissional tenha se
apresentado de forma predominante, especialmente por meio dos tratamentos biomédicos, consultas, exames,
procedimentos terapêuticos e acompanhamento da fisioterapia, os achados demonstram que a experiência
oncológica mobiliza necessidades que ultrapassam o manejo clínico da doença, envolvendo apoio emocional,
espiritualidade, relações familiares, saberes tradicionais, autocuidado e manutenção do bem-estar cotidiano.
A permanência do câncer como problema de saúde pública, com impactos que ultrapassam as repercussões
biológicas e atravessam a imagem corporal, a vida familiar, a sexualidade e as relações sociais, reforça a
relevância de discutir o cuidado a partir dos setores propostos por Kleinman, reconhecendo que o
Artigo de Revisão
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Pensar Enfermagem / v.30 n.01 / Jan-Dez 2026 / DOI: 10.71861/pensarenf.v30i1.482 / e00482
enfrentamento da doença envolve tanto práticas biomédicas quanto recursos familiares, comunitários, culturais
e espirituais.4 No contexto brasileiro, os dados epidemiológicos reforçam a importância de estudos que
abordem o câncer como fenômeno biológico, social e cultural.39
A predominância do setor profissional nos estudos analisados demonstra a centralidade do modelo biomédico
no tratamento oncológico, ainda que tais práticas possam produzir desconfortos físicos, alterações corporais e
sofrimento emocional na vida cotidiana das mulheres. O cuidado profissional precisa ir além da técnica,
entendendo a realidade de cada mulher e acompanhando as repercussões psicossociais do adoecimento com
escuta qualificada40, já que tratamentos como a quimioterapia produzem sintomas físicos e impactos emocionais
que reforçam a necessidade de cuidado sensível e contínuo.41
Para além do acompanhamento da fisioterapia, a enfermagem assume papel estratégico por manter contato
próximo com mulheres e familiares, atuando na educação em saúde, no manejo de sintomas e no suporte
emocional ao longo do tratamento, contribuindo para a melhora do estado psicológico e da qualidade de vida
das mulheres.42 Orientações individualizadas e suporte psicológico favorecem, do mesmo modo, a
compreensão da doença e a adesão terapêutica43, de modo que o cuidado de enfermagem não deve se limitar à
dimensão técnica, mas acolher as experiências, dúvidas e crenças que acompanham as mulheres durante o
tratamento.
No setor popular, os achados desta revisão demonstraram a presença de práticas construídas no cotidiano,
compartilhadas entre familiares, amigos, vizinhos e comunidade. Alimentação, uso de chás e plantas medicinais,
espiritualidade, oração, apoio familiar, autocuidado corporal e busca por bem-estar expressam formas de
cuidado que fazem parte da vida das mulheres antes, durante e após o tratamento oncológico. Tais práticas não
devem ser interpretadas apenas como alternativas ao serviço de saúde, mas como recursos de enfrentamento
que conferem sentido, conforto e continuidade ao cuidado. O conhecimento medicinal tradicional pode ser
transmitido entre gerações por meio da convivência, da observação e da participação comunitária.44 De modo
semelhante, o conhecimento sobre plantas medicinais circula nas relações familiares e comunitárias, sendo
preservado pela oralidade e pela experiência cotidiana.45 Nesse processo, familiares como pais, avós e outros
membros da rede próxima assumem papel importante na manutenção e transmissão desses saberes.11
O setor folk, apareceu associado a práticas tradicionais mediadas por sujeitos socialmente reconhecidos por
determinados saberes de cuidado, como benzedeiros, curandeiros, rezadores ou outros agentes tradicionais.
Garrafadas, rezas, uso orientado de plantas medicinais, chás e práticas espirituais revelam a permanência de
saberes tradicionais no enfrentamento do adoecimento, ainda que com menor representatividade em
comparação ao setor profissional. Essas práticas, em muitos contextos, são sustentadas pela confiança
comunitária, pela oralidade e pelo reconhecimento social de agentes que ocupam lugar simbólico importante
na produção do cuidado. As garrafadas são descritas como preparações artesanais elaboradas a partir da
associação de plantas medicinais e outros elementos naturais.16 Esse tipo de preparação também expressa a
permanência de saberes tradicionais relacionados ao uso combinado de recursos naturais.46 A permanência
dessas práticas evidencia a força da confiança comunitária e do reconhecimento social de agentes tradicionais
no cuidado em saúde.47
A espiritualidade também se destacou como dimensão transversal aos setores de cuidado, pois pode aparecer
tanto no setor popular, por meio da oração individual, da fé e do apoio familiar, quanto no setor folk, quando
vinculada a rezadores ou práticas tradicionais, e ainda no setor profissional, quando reconhecida pela equipe
como dimensão importante do cuidado integral. No contexto do câncer, a espiritualidade pode contribuir para
a atribuição de sentido ao adoecimento, fortalecimento da esperança, redução da ansiedade e enfrentamento
do sofrimento. Práticas espirituais, como oração, aconselhamento e rituais culturalmente contextualizados,
podem contribuir para o conforto emocional e para a melhora da qualidade de vida de pessoas com câncer.8
A religiosidade também pode auxiliar mulheres com câncer a sustentar esperança, ressignificar o sofrimento e
enfrentar as incertezas do tratamento.10 Assim, reconhecer a espiritualidade como prática de cuidado não
significa substituir o tratamento biomédico, mas compreender que muitas mulheres utilizam a fé e a
religiosidade como recursos de sustentação emocional durante o tratamento.
Outro aspecto relevante refere-se às lacunas sociodemográficas observadas nos estudos incluídos,
especialmente quanto à raça/cor das participantes. A ausência ou insuficiência dessas informações limita
análises mais aprofundadas sobre desigualdades no adoecimento oncológico feminino, uma vez que raça/cor,
renda, escolaridade, território e acesso aos serviços de saúde influenciam no tempo entre diagnóstico e
tratamento, a continuidade do cuidado e as condições de enfrentamento da doença. Mulheres pardas e pretas,
residentes em áreas rurais, com dificuldades financeiras e menor acesso à informação, apresentam maior
vulnerabilidade para o desenvolvimento de câncer de colo uterino.48 Além disso, perfis de maior vulnerabilidade
social tendem a apresentar intervalos mais extensos entre o diagnóstico e o início do tratamento.49 Desse modo,
a ausência de dados sociodemográficos fragiliza a compreensão sobre como diferentes mulheres vivenciam o
câncer e acessam os setores de cuidado.
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Pensar Enfermagem / v.30 n.01 / Jan-Dez 2026 / DOI: 10.71861/pensarenf.v30i1.482 / e00482
A abordagem profissional, portanto, precisa reconhecer que as mulheres não chegam aos serviços de saúde
desvinculadas de suas histórias, crenças, vínculos familiares, experiências comunitárias e práticas de cuidado
previamente construídas. Quando essas práticas são silenciadas, desconsideradas ou tratadas com julgamento,
pode haver afastamento entre usuárias e profissionais, dificultando a comunicação sobre o uso de chás, plantas
medicinais, garrafadas e outras práticas tradicionais. Por outro lado, uma escuta qualificada permite que a equipe
identifique possíveis riscos, interações com o tratamento, sentidos atribuídos ao cuidado e formas seguras de
diálogo. A resistência ou o desinteresse profissional diante das práticas populares e tradicionais pode constituir
barreira para a integralidade assistencial.11 Por isso, torna-se necessário que os profissionais desenvolvam uma
postura culturalmente sensível e aberta ao diálogo terapêutico.
Por fim, os achados indicam que os setores popular, folk e profissional não constituem categorias isoladas, fixas
ou excludentes, mas se interseccionam ao longo da trajetória de adoecimento e tratamento.7 Uma mesma prática
pode assumir sentidos distintos conforme o contexto: o uso de plantas medicinais aproxima-se do setor popular
quando aprendido em família45, e do setor folk quando orientado por curandeiros ou rezadores.17 Do mesmo
modo, práticas espirituais, rezas, banhos e garrafadas coexistem com consultas, exames, quimioterapia,
radioterapia, cirurgias e acompanhamento multiprofissional, demonstrando que o cuidado profissional não
elimina outras formas de enfrentamento, mas convive com elas na experiência concreta das mulheres, exigindo
do setor profissional uma postura de escuta, diálogo e sensibilidade cultural.8 Compreender essa intersecção
permite reconhecer que o cuidado oncológico feminino se constrói na articulação entre saberes biomédicos,
familiares, tradicionais e espirituais.
Conclusão
A presente revisão integrativa evidenciou que mulheres com câncer mobilizam diferentes práticas de cuidado
ao longo de sua trajetória de adoecimento e tratamento, envolvendo os setores profissional, popular e folk.
Embora o setor profissional tenha se apresentado de forma predominante, especialmente por meio dos
tratamentos biomédicos, consultas, exames, procedimentos terapêuticos e acompanhamento da fisioterapia,
também foram identificadas práticas vinculadas ao setor popular e ao setor folk, como espiritualidade,
autocuidado, apoio familiar, alimentação, uso de plantas medicinais, chás, garrafadas e orientações de
curandeiros ou rezadores. Esses achados demonstram que o enfrentamento do câncer não se limita ao
tratamento clínico, pois envolve dimensões emocionais, familiares, espirituais, culturais e sociais que
influenciam as escolhas, os sentidos atribuídos ao adoecimento e as formas de cuidado utilizadas pelas mulheres.
Nesse sentido, num campo multiprofissional, a enfermagem assume papel fundamental ao reconhecer esses
diferentes modos de cuidado, favorecendo uma assistência integral, humanizada, segura e culturalmente sensível
ao contexto de vida de cada mulher. A limitação de informações sociodemográficas nos estudos incluídos,
especialmente quanto à raça/cor, restringiu análises mais aprofundadas sobre desigualdades no adoecimento
oncológico feminino, ao mesmo tempo em que a menor visibilidade das práticas do setor folk aponta para a
necessidade de novas investigações sobre saberes tradicionais e suas relações com o cuidado em saúde.
Conclui-se que este estudo contribui para ampliar a compreensão sobre os diferentes setores de cuidado
acessados por mulheres com câncer, evidenciando que tais práticas não ocorrem de forma isolada, mas podem
se apresentar de modo concomitante, complementar ou processual ao longo do tratamento. Recomenda-se,
portanto, que futuras pesquisas aprofundem as intersecções entre os setores profissional, popular e folk,
considerando os contextos socioculturais que atravessam os percursos de cuidado e influenciam as práticas de
cuidado no adoecimento oncológico feminino.
Limitações do estudo
Como limitações deste estudo, destaca-se que a maior parte dos títulos inicialmente identificados a partir do
descritor “câncer” referia-se à prevenção da doença, e não ao diagnóstico, ao tratamento ou às práticas de
cuidado mobilizadas por mulheres durante o adoecimento oncológico. Esse aspecto evidencia uma limitação
do próprio descritor utilizado, uma vez que o termo “câncer” não delimita, por si só, o contexto do diagnóstico
e do tratamento, abrangendo também estudos voltados ao nível preventivo. Outra limitação foi a adoção do
COREQ como guia para avaliar a qualidade dos artigos, pois muitos artigos foram excluídos por não conter
pelo menos 70% das informações exigidas. Observou-se, ainda, a limitação de informações sociodemográficas
relevantes, especialmente relacionadas à raça/cor e idade das mulheres, em diversos estudos incluídos,
conforme evidenciado na caracterização da amostra. Tais limitações não comprometem os achados, mas
evidenciam lacunas na literatura e apontam a necessidade de novas investigações que ampliem o conhecimento
sobre os diferentes setores de cuidado à saúde no adoecimento oncológico feminino.
Artigo de Revisão
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Autoria e Contribuições
AFF: Concepção/desenho do estudo; Coleta de dados; Análise e interpretação; Redação do manuscrito;
Revisão crítica; Aprovação da versão final e responsabilidade pelo mesmo.
SGO: Concepção/desenho do estudo; Coleta de dados; Análise e interpretação; Redação do manuscrito;
Revisão crítica; Aprovação da versão final e responsabilidade pelo mesmo.
FEM: Concepção/desenho do estudo; Coleta de dados; Análise e interpretação; Redação do manuscrito;
Revisão crítica; Aprovação da versão final e responsabilidade pelo mesmo.
KSP: Coleta de dados; Análise e interpretação; Redação do manuscrito; Revisão crítica; Aprovação da versão
final e responsabilidade pelo mesmo.
AFJ: Coleta de dados; Análise e interpretação; Redação do manuscrito; Revisão crítica; Aprovação da versão
final e responsabilidade pelo mesmo.
Conflitos de interesse e Financiamento
Nenhum conflito de interesse foi declarado pelas autoras.
Fontes de apoio / Financiamento
Este estudo não foi objeto de financiamento.
Declaração sobre disponibilização dados
Por tratar-se de revisão integrativa da literatura, este estudo não produziu banco de dados primário, razão pela
qual a disponibilização de dados adicionais não se aplica.
Material Suplementar
- Parecer Revisor A
- Parecer Revisor B
- Carta de resposta aos revisores
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