Artigo de Revisão
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Pensar Enfermagem / v.30 n.01 / Jan-Dez 2026 / DOI: 10.71861/pensarenf.v30i1.482 / e00482
enfrentamento da doença envolve tanto práticas biomédicas quanto recursos familiares, comunitários, culturais
e espirituais.4 No contexto brasileiro, os dados epidemiológicos reforçam a importância de estudos que
abordem o câncer como fenômeno biológico, social e cultural.39
A predominância do setor profissional nos estudos analisados demonstra a centralidade do modelo biomédico
no tratamento oncológico, ainda que tais práticas possam produzir desconfortos físicos, alterações corporais e
sofrimento emocional na vida cotidiana das mulheres. O cuidado profissional precisa ir além da técnica,
entendendo a realidade de cada mulher e acompanhando as repercussões psicossociais do adoecimento com
escuta qualificada40, já que tratamentos como a quimioterapia produzem sintomas físicos e impactos emocionais
que reforçam a necessidade de cuidado sensível e contínuo.41
Para além do acompanhamento da fisioterapia, a enfermagem assume papel estratégico por manter contato
próximo com mulheres e familiares, atuando na educação em saúde, no manejo de sintomas e no suporte
emocional ao longo do tratamento, contribuindo para a melhora do estado psicológico e da qualidade de vida
das mulheres.42 Orientações individualizadas e suporte psicológico favorecem, do mesmo modo, a
compreensão da doença e a adesão terapêutica43, de modo que o cuidado de enfermagem não deve se limitar à
dimensão técnica, mas acolher as experiências, dúvidas e crenças que acompanham as mulheres durante o
tratamento.
No setor popular, os achados desta revisão demonstraram a presença de práticas construídas no cotidiano,
compartilhadas entre familiares, amigos, vizinhos e comunidade. Alimentação, uso de chás e plantas medicinais,
espiritualidade, oração, apoio familiar, autocuidado corporal e busca por bem-estar expressam formas de
cuidado que fazem parte da vida das mulheres antes, durante e após o tratamento oncológico. Tais práticas não
devem ser interpretadas apenas como alternativas ao serviço de saúde, mas como recursos de enfrentamento
que conferem sentido, conforto e continuidade ao cuidado. O conhecimento medicinal tradicional pode ser
transmitido entre gerações por meio da convivência, da observação e da participação comunitária.44 De modo
semelhante, o conhecimento sobre plantas medicinais circula nas relações familiares e comunitárias, sendo
preservado pela oralidade e pela experiência cotidiana.45 Nesse processo, familiares como pais, avós e outros
membros da rede próxima assumem papel importante na manutenção e transmissão desses saberes.11
O setor folk, apareceu associado a práticas tradicionais mediadas por sujeitos socialmente reconhecidos por
determinados saberes de cuidado, como benzedeiros, curandeiros, rezadores ou outros agentes tradicionais.
Garrafadas, rezas, uso orientado de plantas medicinais, chás e práticas espirituais revelam a permanência de
saberes tradicionais no enfrentamento do adoecimento, ainda que com menor representatividade em
comparação ao setor profissional. Essas práticas, em muitos contextos, são sustentadas pela confiança
comunitária, pela oralidade e pelo reconhecimento social de agentes que ocupam lugar simbólico importante
na produção do cuidado. As garrafadas são descritas como preparações artesanais elaboradas a partir da
associação de plantas medicinais e outros elementos naturais.16 Esse tipo de preparação também expressa a
permanência de saberes tradicionais relacionados ao uso combinado de recursos naturais.46 A permanência
dessas práticas evidencia a força da confiança comunitária e do reconhecimento social de agentes tradicionais
no cuidado em saúde.47
A espiritualidade também se destacou como dimensão transversal aos setores de cuidado, pois pode aparecer
tanto no setor popular, por meio da oração individual, da fé e do apoio familiar, quanto no setor folk, quando
vinculada a rezadores ou práticas tradicionais, e ainda no setor profissional, quando reconhecida pela equipe
como dimensão importante do cuidado integral. No contexto do câncer, a espiritualidade pode contribuir para
a atribuição de sentido ao adoecimento, fortalecimento da esperança, redução da ansiedade e enfrentamento
do sofrimento. Práticas espirituais, como oração, aconselhamento e rituais culturalmente contextualizados,
podem contribuir para o conforto emocional e para a melhora da qualidade de vida de pessoas com câncer.8
A religiosidade também pode auxiliar mulheres com câncer a sustentar esperança, ressignificar o sofrimento e
enfrentar as incertezas do tratamento.10 Assim, reconhecer a espiritualidade como prática de cuidado não
significa substituir o tratamento biomédico, mas compreender que muitas mulheres utilizam a fé e a
religiosidade como recursos de sustentação emocional durante o tratamento.
Outro aspecto relevante refere-se às lacunas sociodemográficas observadas nos estudos incluídos,
especialmente quanto à raça/cor das participantes. A ausência ou insuficiência dessas informações limita
análises mais aprofundadas sobre desigualdades no adoecimento oncológico feminino, uma vez que raça/cor,
renda, escolaridade, território e acesso aos serviços de saúde influenciam no tempo entre diagnóstico e
tratamento, a continuidade do cuidado e as condições de enfrentamento da doença. Mulheres pardas e pretas,
residentes em áreas rurais, com dificuldades financeiras e menor acesso à informação, apresentam maior
vulnerabilidade para o desenvolvimento de câncer de colo uterino.48 Além disso, perfis de maior vulnerabilidade
social tendem a apresentar intervalos mais extensos entre o diagnóstico e o início do tratamento.49 Desse modo,
a ausência de dados sociodemográficos fragiliza a compreensão sobre como diferentes mulheres vivenciam o
câncer e acessam os setores de cuidado.