Artigo Original Qualitativo
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Pensar Enfermagem / v.30 n.01 / Jan-Dez 2026 / DOI: 10.71861/pensarenf.v30i1.496 / e00496
Estratégias da Gestão em Enfermagem na Promoção do Uso
Racional e Seguro dos Medicamentos nos Cuidados de Saúde
Primários: Estudo Qualitativo
Nursing Management Strategies for Promoting the Rational
and Safe Use of Medications in Primary Health Care: A
Qualitative Study
Maria Mancelos1*, Rosa Melo2, Teresa Neves3
1 Mestrado. Unidade de Saúde Familiar CelaSaude, Unidade Local de Saúde de Coimbra, Coimbra, Portugal; orcid.org/0009-0007-8037-5708
2 Doutoramento. Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Coimbra, Coimbra, Portugal; orcid.org/0000-0002-0941-407X
3 Doutoramento. Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Coimbra, Coimbra, Portugal; orcid.org/0000-0002-1053-4909
* Corresponding author: MCMancelos@ulscoimbra.min-saude.pt
Recebido: 12.03.2026
Revisto: 04.07.2026
Aceite: 27.08.2026
Editor: Florinda Galinha
Como citar este artigo: Mancelos M, Melo R, Neves T. Estratégias da Gestão em Enfermagem na Promoção do Uso Racional e Seguro dos Medicamentos
nos Cuidados de Saúde Primários: Estudo Qualitativo. Pensar Enf [Internet]. 2026; 30 (1): e00496. Available from:
https://doi.org/10.71861/pensarenf.v30i1.496.
Resumo
Introdução
Os eventos adversos associados à utilização de medicamentos constituem um problema relevante de
segurança do doente a nível global. Nos Cuidados de Saúde Primários (CSP), os enfermeiros assumem um
papel central na gestão do circuito do medicamento, integrando responsabilidades clínicas, organizacionais e
de liderança que influenciam diretamente a promoção do Uso Racional e Seguro dos Medicamentos (URSM).
Contudo, permanece limitada a evidência sobre as estratégias organizacionais adotadas pelos enfermeiros
neste contexto assistencial.
Objetivo
Identificar as estratégias a adotar pelos enfermeiros responsáveis pela gestão da medicação para a promoção
do Uso Racional e Seguro dos Medicamentos nos Cuidados de Saúde Primários.
Métodos
Estudo descritivo de natureza qualitativa, realizado entre junho e outubro de 2024. A recolha de dados foi
efetuada através de questionário de autopreenchimento dirigido a enfermeiros a exercer funções nos
Cuidados de Saúde Primários em Portugal, utilizando a técnica de amostragem bola de neve. Participaram 115
enfermeiros. Foi realizada uma análise de conteúdo categorial com base na proposta metodológica de Bardin,
com pré-análise, leitura flutuante e organização do material textual; codificação das unidades de registo e
construção de categorias e subcategorias emergentes e tratamento e interpretação dos resultados, através da
análise frequencial, convertendo os dados qualitativos em dados de análise quantitativa. Este processo foi
apoiado pelo software NVivo, versão 11 (QSR International), facilitando a sistematização, categorização e
análise estruturada das respostas dos participantes. Foram assegurados os princípios éticos, incluindo
consentimento informado e aprovação pela comissão de ética.
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Resultados
Emergiram três categorias principais: Organização/Instituição, Monitorização/Avaliação e Uniformização/
Padronização. As estratégias identificadas incluem a valorização da formação contínua, a otimização dos
processos logísticos, a implementação de auditorias internas, a normalização das práticas através de
protocolos e procedimentos e a promoção de feedback coletivo estruturado. Estas estratégias evidenciam a
centralidade da dimensão organizacional na segurança medicamentosa.
Conclusão
Os resultados reforçam o papel estratégico dos enfermeiros gestores na consolidação de uma cultura de
segurança nos Cuidados de Saúde Primários, evidenciando que liderança, formação contínua, monitorização
sistemática e trabalho colaborativo são determinantes para a promoção do Uso Racional e Seguro dos
Medicamentos e para a melhoria da qualidade dos cuidados.
Palavras-chave
Administração de Enfermagem; Atenção Primária à Saúde; Segurança do Paciente; Uso Racional e Seguro
de Medicamentos.
Abstract
Introduction
Adverse events associated with medication use constitute a significant patient safety problem globally. In
Primary Health Care, nurses play a central role in managing the medication pathway, integrating clinical,
organizational, and leadership responsibilities that directly influence the promotion of the Rational and Safe
Use of Medicines (RSM). However, evidence regarding the organizational strategies adopted by nurses in this
care context remains limited.
Objective
To identify the strategies to be adopted by nurses responsible for medication management to promote the
rational and safe use of medicines in primary health care.
Methods
This descriptive, qualitative study was conducted between June and October 2024. Data collection was
carried out using a self-administered questionnaire directed at nurses working in Primary Health Care in
Portugal, using the snowball sampling technique. 115 nurses participated. A categorical content analysis was
performed based on Bardin's methodological proposal, with pre-analysis, floating reading and organization of
the textual material; coding of the recording units and construction of emerging categories and subcategories;
and treatment and interpretation of the results through frequency analysis, converting qualitative data into
quantitative data. This process was supported by NVivo software, version 11 (QSR International), facilitating
systematization, categorization, and structured analysis of the participants' responses. Ethical principles were
ensured, including informed consent and approval by the ethics committee.
Results
Three main categories emerged: Organization/Institution, Monitoring/Evaluation, and
Standardization/Unification. The strategies identified include valuing continuous training, optimizing
logistical processes, implementing internal audits, standardizing practices through protocols and procedures,
and promoting structured collective feedback. These strategies highlight the centrality of the organizational
dimension in medication safety.
Conclusion
The results reinforce the strategic role of nurse managers in consolidating a safety culture in Primary Health
Care, demonstrating that leadership, continuous training, systematic monitoring, and collaborative work are
crucial for promoting the rational and safe use of medicines and improving the quality of care.
Keywords
Nursing Administration; Primary Health Care; Patient Safety; Rational and Safe Use of Medications.
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Introdução
A segurança do doente constitui um dos pilares estruturantes da qualidade em saúde, assumindo-se como
prioridade estratégica a nível global. A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem vindo a alertar para o
impacto significativo dos eventos adversos associados à utilização de medicamentos, reconhecendo-os como
uma das principais causas evitáveis de dano nos sistemas de saúde. O Global Patient Safety Action Plan
20212030 reforça a necessidade de implementação de estratégias organizacionais integradas que promovam
práticas seguras, cultura de segurança e liderança clínica comprometida com a redução do risco1.
De acordo com a OMS2, a prevalência de danos evitáveis relacionados com medicamentos é de 5%, sendo
um quarto dos danos grave ou potencialmente fatal. Os erros de medicação contribuem com 9% do custo
total evitável dos cuidados de saúde no mundo e com 0,7% das despesas totais com saúde em todo o mundo,
o que equivale a 42 mil milhões de dólares americanos estimados em erros de medicação. Segundo a Direção
Geral da Saúde3a segurança no uso de medicamentos, assume-se como uma componente chave num sistema
de qualidade de uma organização que presta cuidados de saúde. Os profissionais de saúde, nomeadamente os
enfermeiros, são responsáveis por implementar práticas, que reduzam o risco, previnam e minimizem a
ocorrência de eventos adversos.
Os medicamentos de alta vigilância, os erros associados a medicamentos LASA (Look-Alike, Sound-Alike) e
as fragilidades nos processos de armazenamento, preparação e administração continuam a representar
desafios relevantes à segurança terapêutica. Em resposta, a Direção-Geral da Saúde3 tem vindo a emitir
normas e orientações que visam reforçar a segurança do circuito do medicamento, sublinhando a importância
da monitorização sistemática, da normalização de procedimentos e da responsabilização organizacional.
Nos CSP, a gestão dos medicamentos assume especificidades próprias, decorrentes da diversidade de
contextos assistenciais, da proximidade com a comunidade e da necessidade de assegurar continuidade de
cuidados. Neste cenário, os enfermeiros desempenham um papel central na gestão do circuito do
medicamento, envolvendo a previsão de necessidades, aquisição, armazenamento, controlo de validades,
preparação, administração e monitorização terapêutica. Para além da dimensão técnica, esta responsabilidade
integra uma dimensão organizacional e estratégica, associada à gestão de recursos e à promoção de práticas
seguras. De acordo com o estudo de Mancelos et al.4, a existência de não conformidades em mais de metade
das práticas de enfermagem, bem como a existência de lacunas no conhecimento relativo a conceitos
fundamentais para a segurança na gestão da medicação, reforça a necessidade premente de uma liderança de
enfermagem orientada para a promoção de formação contínua dos profissionais e para a consolidação de uma
cultura de segurança não punitiva, centrada na melhoria contínua dos processos.
Segundo Teixeira et al.5 para reduzir danos evitáveis no uso de medicamentos e melhorar a segurança dos
cuidados de saúde, deve ser garantido um fluxo constante de informações e conhecimentos para impulsionar
a mitigação de riscos. Neste sentido, o enfermeiro gestor é essencial para inspirar, educar, capacitar e proteger
os enfermeiros, para que estes possam conceber cuidados seguros.
A Ordem dos Enfermeiro6 reconhece que a organização dos cuidados de enfermagem e a gestão de recursos
constituem competências próprias da profissão, sendo o enfermeiro gestor um elemento determinante na
implementação de processos de melhoria contínua e na consolidação de uma cultura de segurança. O estudo
de Santos, Ferreira e Melo7, revela que os enfermeiros gestores consideram a liderança como estratégia
fundamental para a promoção da cultura de segurança. A dinamização das equipas, a gestão do capital
humano com dotações seguras bem como das competências especificas dos enfermeiros e a formação
continua e organizada, proporcionam maior segurança para os utentes e profissionais. Também o estudo de
Hafezy et al.9 demonstrou a existência de relação entre a cultura de segurança e a competência dos
enfermeiros com a incidência de eventos adversos e que o enfermeiro gestor deve ser promotor da
notificação de incidentes, do trabalho em equipa, do feedback e da comunicação entre pares.
A liderança em enfermagem assume assim, um papel estruturante na promoção do URSM, ao fomentar
ambientes colaborativos, não punitivos e orientados para a aprendizagem organizacional.
Apesar da crescente valorização da segurança medicamentosa no contexto hospitalar, verifica-se ainda
escassez de estudos que explorem, em profundidade, as estratégias organizacionais implementadas nos CSP,
particularmente a partir da perspetiva dos enfermeiros responsáveis pela gestão da medicação. A
compreensão destas estratégias é essencial para fundamentar intervenções ajustadas à realidade dos CSP e
para reforçar o contributo da gestão em enfermagem na prevenção do erro e na promoção da qualidade
assistencial.
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Neste contexto, o presente estudo teve como objetivo identificar as estratégias a adotar pelos enfermeiros
responsáveis pela gestão da medicação para a promoção do Uso Racional e Seguro dos Medicamentos nos
Cuidados de Saúde Primários.
Métodos
Trata-se de um estudo descritivo de natureza qualitativa, com análise de conteúdo frequencial. A população-
alvo foi constituída por enfermeiros que exerciam funções nos CSP.
A recolha de dados ocorreu entre 29 de junho e 31 de outubro de 2024. A amostra (117 participantes) foi
selecionada de forma não probabilística, utilizando a técnica de amostragem “bola de neve”. Foram
estabelecidos os seguintes critérios de inclusão: enfermeiros em exercício nos CSP, enfermeiros responsáveis
pela gestão de medicamentos e profissionais que preencheram o questionário. Foram excluídos 2
participantes por não terem respondido ao questionário embora o tenham submetido, sendo o valor final da
amostra de 115 participantes.
O instrumento de recolha de dados foi um questionário de autopreenchimento, estruturado em dois blocos:
(1) Gestão e promoção do URSM incluía a questão: “Identifique as estratégias que o enfermeiro
responsável pela gestão da medicação pode implementar para promover o uso racional e seguro dos
medicamentos”; (2) Características sociodemográficas, profissionais e de formação na área da gestão e em
URSM.
A análise de conteúdo categorial seguiu a metodologia proposta por Bardin8 que compreendeu três fases
fundamentais: 1. Pré-análise, com leitura flutuante e organização do material textual; 2. Exploração do
material, com codificação das unidades de registo e construção de categorias e subcategorias emergentes; 3.
Tratamento dos resultados e interpretação, através da análise frequencial, que permitiu quantificar a incidência
das categorias identificadas, convertendo os dados qualitativos em dados suscetíveis de análise quantitativa.
Este processo foi apoiado pelo software NVivo, versão 11 (QSR International), facilitando a sistematização,
categorização e análise estruturada das respostas dos participantes.
Os princípios éticos foram tidos em consideração: a participação foi voluntária, com obtenção de
consentimento informado, livre e esclarecido, garantindo anonimato e confidencialidade dos dados. O estudo
recebeu parecer favorável da Comissão de Ética da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (Parecer
1028-04-2024).
Resultados
O estudo integrou 115 enfermeiros, sendo a maioria do género feminino (102; 88,7%), com média de idade (
x =48,93; DP =8,42) variando entre 26 e 65 anos. O tempo de exercício profissional apresentou média de (x
=25,33; DP =8,01) com variação de 4 a 40 anos e o tempo de exercício nos CSP apresentou mediana de 17
anos (9-25), variando entre 0 e 40 anos. A maioria dos participantes eram enfermeiros (60; 52,2%). Os
enfermeiros especialistas correspondem a (52; 45,2%) e apenas (3; 2,6%) são enfermeiros gestores. Quanto ao
grau académico, (37; 32,2%) possuem mestrado, (38; 33%) dos enfermeiros têm formação na área da gestão, e
(55;47,8%) referem ter formação sobre URSM, sendo que apenas (15; 13%) consideram que foi suficiente.
Da análise de conteúdo categorial às estratégias promotoras do URSM emergiram três categorias principais:
Organização/Instituição, Monitorização/Avaliação e Uniformização/Padronização.
A primeira categoria emergente corresponde a Organização/Instituição e refere-se a estratégias
relacionadas com a estrutura organizacional e a gestão interna das diferentes unidades funcionais, subdivididas
em 2 subcategorias:
- Formação: destaca a importância da formação para atualização de conhecimentos e promoção do URSM.
Os participantes salientaram a necessidade de incluir a temática no plano de formação da instituição, como
“anualmente promover formação/atualização sobre a segurança do medicamento” P13, “formação dos
profissionais na área da gestão racional do medicamento” P28 e “fazer formação sobre URSM/PF” P62,
reforçando que é fundamental a capacitação de todos os enfermeiros “formação de toda a equipa” P97.
- Logística: refere-se à necessidade de as unidades funcionais terem espaços físicos adequados e recursos
suficientes para a gestão de stocks e correta utilização dos M/PF. As estratégias sugeridas abrangem a
existência de armazéns avançados, otimização da gestão de stocks e utilização do Modelo FEFO. Os
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participantes consideram fundamental o uso de material informático para registo do consumo, como “Um
dos princípios fundamentais é usufruir de material informático adequado para conseguir implementar e
promover o URSM/PF” P101 e “Ter a medicação identificada e por método de armazém avançado com
saídas e entradas registadas” P52. Quanto à otimização de stocks, recomenda-se “Recorrer à metodologia
Lean- Kanban e Kaizen” P7, “stock adaptado às necessidades do serviçoP16 e “adequar a aquisição de
material” P84. O Modelo FEFO promove a segurança e eficiência, com estratégias como “Revisão periódica
de validades” P16 e “Acondicionar os medicamentos nos seus respetivos locais, bem identificados e por
ordem de data de validade” P33.
A segunda categoria emergente corresponde a Monitorização/Avaliação e destaca a realização de auditorias
como única subcategoria, considerando-a uma ferramenta sistemática de acompanhamento, com frequência
variável e discussão em equipa, como “Auditorias trimestrais às salas de tratamentos” e “Auditorias anuais à
farmácia da unidade/armazém avançado” P108, “Auditorias 6/6 meses” P45, “auditorias frequentes” P24 e
“auditar a utilização dos produtos” P85. É salientada a importância de debater os resultados em equipa para
promover mudanças, como “auditoria aos locais de armazenamento dos medicamentos e sua discussão com a
equipa bem como avaliação de medidas de melhoria” P38.
A terceira categoria corresponde a Uniformização/Padronização e abrange estratégias que promovem a
prática clínica segura e eficiente, subdivididas em 2 subcategorias:
- Protocolos/Procedimentos: criação de normas e protocolos claros, como “a criação de formulários e
protocolos de orientação aos profissionais de saúde” P6, “Criar protocolos para o serviço simples e objetivos
para garantir a adesão da equipa e que possam ser afixáveis” P7, “Novos/Otimização de procedimentos” P57
e “Uniformizar os procedimentos de acordo com literatura de referência” P112. Também é destacada a
importância de normas internas de fácil acesso, como “Facilitar acesso rápido de normas para o uso seguro e
racional” P8 e “Elaboração de uma norma interna de consulta rápida” P80.
- Feedback coletivo: refere-se ao debate estruturado sobre perceções, desempenho e colaboração,
promovendo envolvimento de toda a equipa na gestão dos medicamentos. Estratégias incluem reuniões
regulares, partilha de informação e rotatividade na responsabilidade, como “Fazer reuniões semanais com a
equipa e realizar um briefing sobre o uso racional dos M/PF” P10, “Fomentar a discussão em reunião de
enfermagem…” P98, “analise e discussão de auditorias em Equipa” P2, “Envolver e responsabilizar a equipa
na gestão” P47.
Em síntese, os participantes destacaram estratégias promotoras do URSM nas dimensões: institucional,
através da formação e gestão logística eficiente; avaliativa, por meio de auditorias periódicas e discussão de
resultados e normativa, mediante a criação de protocolos clínicos e uma cultura de comunicação aberta. Estes
resultados reforçam a necessidade de uma abordagem integrada na prática diária dos enfermeiros
responsáveis pela gestão de medicamentos e pelos enfermeiros gestores.
Discussão
Embora o estudo identifique uma proporcionalidade adequada entre enfermeiros e enfermeiros especialistas,
observa-se um défice quantitativo de enfermeiros gestores. Esta escassez constitui um potencial obstáculo à
implementação das estratégias promotoras do URSM preconizadas por estes profissionais. Importa sublinhar
que 52,2% dos participantes do presente estudo referiram nunca ter recebido formação especifica sobre o
URSM, sendo que, entre os que referiram ter tido formação, apenas 13% consideram que esta foi suficiente.
Esta realidade reforça a pertinência das orientações preconizadas pelo Plano de Ação Global para a Segurança
do Doente 2021-2030, da OMS1, que, no Objetivo Estratégico 5 - Formação, Competências e Segurança dos
Profissionais de Saúde, recomenda a promoção ativa da formação continua, através da frequência de cursos
online e presenciais em matérias relacionadas com a segurança do doente, como parte integrante do
desenvolvimento profissional contínuo. Neste mesmo sentido, Marques10 reforça que a formação em
enfermagem representa um eixo fundamental para a capacitação dos profissionais, permitindo dar resposta às
exigências do contexto clínico atual e fomentar decisões informadas. A aquisição de competências específicas
é determinante para a adoção de práticas seguras e para a consolidação de comportamentos que contribuam
para a excelência dos cuidados de saúde.
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Na análise das estratégias sugeridas pelos enfermeiros para promover o URSM, emergiram propostas
alinhadas com uma visão organizacional orientada para a qualidade e segurança dos cuidados. As estratégias
identificadas concentram-se sobretudo na valorização da formação contínua, na melhoria dos processos
logísticos, e na realização de auditorias internas como instrumento de monitorização e melhoria contínua, na
normalização das práticas através de protocolos e procedimentos institucionais e na implementação de
momentos sistemáticos de feedback coletivo.
A formação contínua é referida como um pilar estratégico para o reforço das competências dos enfermeiros.
Esta estratégia encontra-se em conformidade com o conteúdo funcional do enfermeiro gestor11, que prevê a
sua responsabilidade na valorização das competências da equipa e na promoção de processos formativos
alinhados com as orientações institucionais. O enfermeiro gestor deve assumir um papel ativo na criação de
condições que favoreçam a aprendizagem ao longo da vida, dinamizando ações de formação que promovam
o desenvolvimento de competências clínicas e a incorporação da investigação na prática assistencial, visando a
melhoria contínua da qualidade dos cuidados.
A logística, enquanto componente operacional crítica, é considerada uma área estratégica para assegurar a
continuidade e segurança dos cuidados. A gestão adequada dos stocks de medicamentos, o controlo das
condições de armazenamento e a organização eficiente dos recursos são responsabilidades do enfermeiro
gestor, em articulação com os enfermeiros com funções de gestão da terapêutica. O conteúdo funcional do
enfermeiro gestor estabelece que este deve definir as necessidades de recursos materiais considerando
critérios de custo, eficácia e segurança. Relativamente a medicamentos de alto risco, como os LASA e MAM,
cabe ao gestor garantir a atualização das listas institucionais, o controlo das validades após abertura e a
rastreabilidade dos medicamentos, promovendo práticas baseadas na melhor evidência disponível. O
International Council of Nurses (ICN)12 destaca que a otimização de recursos pode aumentar a produtividade
e reduzir o desperdício de materiais e medicamentos fora de validade. Reforça ainda que o tempo que um
enfermeiro gasta à procura de materiais ou a gerir falhas de stock é um tempo de valor não acrescentado. O
estudo de Abdollahi e Bagherzadi13 sublinha que a eficiência logística é indissociável da qualidade da
assistência, sendo que ruturas de stock atuam como precursores da omissão de cuidados. Este cenário obriga
o enfermeiro a uma gestão de crise imediata, desviando o foco da vigilância clínica para a resolução de
problemas operacionais. Segundo o ICN12tais falhas não só comprometem a segurança, como elevam o stress
ético e o risco de burnout ao impedir que os profissionais atuem no seu pleno âmbito de competência.
A realização de auditorias internas é valorizada como uma estratégia de monitorização da qualidade e da
conformidade das práticas, permitindo identificar fragilidades, propor melhorias e validar os resultados das
intervenções implementadas. As auditorias funcionam como instrumento pedagógico e de apoio à prática,
promovendo autorreflexão e alinhamento com os padrões de qualidade. O Regulamento do Exercício
Profissional em Enfermagem6 atribui ao enfermeiro gestor a responsabilidade de garantir a implementação da
melhoria contínua da qualidade dos cuidados, assegurando uma prática profissional sustentada na evidência, e
reforçada pelo Decreto-Lei n.º 71/201911, que estipula a necessidade de auditorias internas sistemáticas para
aprimoramento dos cuidados prestados. O estudo de Bernardino e Bernardino14 revela que a auditoria clínica
constitui um instrumento fundamental da governação clínica e quando implementada de forma sistemática,
atua como um motor para a efetividade e gestão do risco, promovendo o desenvolvimento profissional e a
transparência institucional. Segundo o ICN12 este rigor na monitorização de resultados é essencial para
assegurar padrões de excelência e garantir a melhoria contínua da qualidade nos serviços de saúde.
A normalização das práticas clínicas, através de protocolos e procedimentos claros, é considerada essencial
para a promoção da segurança e para a redução da variabilidade indesejada na prestação de cuidados. De
acordo com a Ordem dos Enfermeiros6 estes instrumentos devem estar atualizados, acessíveis a toda a equipa
e alinhados com a evidência científica, sendo responsabilidade do enfermeiro gestor propor e manter a
documentação institucional que sustenta a prática assistencial. A existência de normas bem definidas é um
catalisador para a excelência clínica, pois contribui diretamente para a padronização das intervenções, garante
a previsibilidade dos processos e promove o aumento da confiança entre os profissionais. O relatório do
ICN12 corrobora esta teoria referindo que a normalização das práticas clínicas transcende a função de mera
ferramenta administrativa, posicionando-se como um pilar estratégico vital para a segurança do doente.
A partilha de experiências, através do feedback coletivo, constitui uma estratégia promotora da comunicação
eficaz, da reflexão sobre a prática e da identificação de oportunidades de melhoria. O estudo de Santos,
Ferreira e Melo7 reforça esta ideia, concluindo que o enfermeiro gestor assume um papel central neste
processo, facilitando a circulação de informação relevante, promovendo espaços de debate que permitam
discutir dificuldades, novas evidências e práticas inovadoras. Esta abordagem favorece a coesão da equipa, o
sentido de pertença e a corresponsabilização dos profissionais na construção de uma cultura de segurança.
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Assim e conforme referido por Oliveira et al.15, o enfermeiro gestor deve atuar como líder, promovendo
comunicação, partilha de saberes e tomada de decisão participativa, enquanto Correia16 sublinha que o
acompanhamento próximo e o feedback são determinantes para um desempenho eficaz, potenciando a
motivação e a qualidade da intervenção.
Em ntese, as estratégias identificadas reafirmam o papel crucial dos enfermeiros com funções de gestão na
implementação do URSM. O foco na formação contínua, aliado a instrumentos de governação como
protocolos e auditorias, sustenta a segurança e a efetividade dos cuidados. Em última análise, a promoção de
um ambiente o punitivo e de reflexão conjunta consolida as competências do enfermeiro gestor,
permitindo uma resposta ágil às inconformidades e a otimização dos recursos.
Conclusão
O presente estudo permitiu aprofundar a compreensão das estratégias organizacionais valorizadas pelos
enfermeiros na promoção do Uso Racional e Seguro dos Medicamentos nos Cuidados de Saúde Primários,
contribuindo para colmatar a lacuna identificada na literatura relativamente a este contexto assistencial.
Os resultados evidenciam que a segurança medicamentosa é entendida como responsabilidade coletiva,
sustentada numa liderança ativa dos enfermeiros gestores, na formação contínua das equipas, na otimização
dos processos logísticos, na padronização das práticas e na monitorização sistemática através de auditorias.
Estas estratégias configuram um modelo organizacional orientado para a prevenção do erro e para a
consolidação de uma cultura de segurança. Reforça o papel estratégico do enfermeiro gestor enquanto
promotor de ambientes colaborativos, reflexivos e não punitivos, fundamentais para a sustentabilidade da
qualidade assistencial nos Cuidados de Saúde Primários. Ao evidenciar a centralidade da gestão em
enfermagem na segurança terapêutica, este trabalho contribui para a valorização da liderança clínica como
componente essencial de sistemas de saúde mais seguros, eficientes e orientados para a criação de valor em
saúde.
Face a estes resultados, destacam-se algumas sugestões de intervenção a curto e médio prazo, como o
reforço da formação contínua no âmbito do URSM, a otimização dos armazéns avançados nas unidades
funcionais, a padronização da identificação e armazenamento dos medicamentos, o incentivo à notificação
de incidentes adversos sem medo de punição, a atualização e acessibilidade dos protocolos e a realização de
auditorias periódicas com enfoque pedagógico e orientadas para a melhoria contínua. Importa também que
os enfermeiros gestores se afirmem como líderes promotores de uma cultura de segurança, capazes de
motivar e envolver as suas equipas na construção de ambientes clínicos seguros, colaborativos e baseados
na evidência.
Limitações do estudo
Como limitações do estudo, reconhece-se que poderão existir estratégias relevantes para a promoção do
URSM que não foram mencionadas pelos participantes. Recomenda-se, por isso, a realização de investigações
futuras, preferencialmente com metodologias qualitativas mais aprofundadas, capazes de explorar de forma
detalhada as perceções, motivações e barreiras sentidas pelos enfermeiros neste contexto.
O uso de questionário aberto pode constituir uma limitação, dado que as respostas podem ter sido
influenciadas pela interpretação subjetiva dos participantes, não refletindo de forma completa todas as
estratégias possíveis. Está também presente um possível viés de autorresposta, pois os participantes poderiam
enfatizar práticas consideradas socialmente desejáveis ou alinhadas com normas institucionais.
Por fim, a utilização de amostragem não probabilística limita a generalização dos resultados à população de
enfermeiros dos CSP. Assim, recomenda-se cautela na extrapolação das conclusões, sendo desejável que
estudos futuros incluam amostras representativas e aleatórias, reforçando a validade externa e a robustez dos
dados.
Autoria e Contribuições
MM: Conceção e planeamento do estudo; recolha de dados; análise e interpretação dos dados; redação do
manuscrito; revisão crítica do manuscrito; aprovação da versão final do manuscrito e assunção da
responsabilidade pelo mesmo.
RM: Análise e interpretação dos dados; revisão crítica do manuscrito; aprovação da versão final do
manuscrito e assunção da responsabilidade pelo mesmo.
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TN: Análise e interpretação dos dados; revisão crítica do manuscrito; aprovação da versão final do
manuscrito e assunção da responsabilidade pelo mesmo.
Conflitos de interesse e Financiamento
Os autores não declararam qualquer conflito de interesses.
Fontes de apoio / Financiamento
O estudo não recebeu financiamento.
Declaração sobre disponibilização dados
Os dados que sustentam os resultados deste estudo estão disponíveis mediante pedido ao autor
correspondente.
Material Suplementar:
- Parecer Revisor A
- Parecer Revisor B
Referências
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harm in health care [Internet]. Geneva: WHO; 2021. [cited 2026 março 03]. 108 p. Available from:
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2. World Health Organization. Global burden of preventable medication-related harm in health care: a
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